Feeds:
Posts
Comentários

Chris, meu esposo, inglês, sempre diz que, para mim, antes de eu ser brasileira sou mineira. Eu respondo que não tenho culpa de ter nascido no melhor estado do Brasil…

Exageros e brincadeiras à parte, o fato é que sou sim orgulhosa da minha origem mineira. Seja por isso, ou pelo fato de que, quando estamos em terra estrangeira ficamos procurando algo familiar, ou por uma combinação das duas coisas, a questão é que acabei encontrando semelhanças, aqui em Hong Kong, com minha querida Minas Gerais.

Vejam só:

1) Minas é conhecida por ter a melhor culinária do Brasil e Hong Kong também tem o status de ser o paraíso dos amantes de comida (como a maioria das comidas não é vegetariana, não sei atestar a veracidade do fato nem aqui nem lá).

2) No meu segundo dia em Hong Kong, entrei em uma padaria e descobri que a mais famosa iguaria mineira chegou aqui: pão de queijo! E ainda por cima escrito em português!

pao de queijo em Hong Kong-abordodmundo

A padaria era no centro e perto de um hotel, então pensei que podia ser coisa turística. E a grafia em português suponho que seja influência de Macau, ex-colônia portuguesa, que fica a uma hora daqui. No entanto, na padaria perto de onde moramos, lugar com poucos estrangeiros, eles também possuem a deliciosa iguaria, mas vejam a grafia! Muito engraçado.

pontikege de queijo em Hong Kong-abordodmundo

E o sabor? Claro que nenhum mineiro acha que pão de queijo fora de Minas Gerais, nem nos estados vizinhos, tem o gosto igual ao nosso. Mas, nesse caso, não tem muito sabor de queijo ou polvilho. Parece mais uma broinha. É meio doce. E eles fazem ainda em versões com sabores diferente: pedaços de chocolate, ervas e gergelim.

E o preço? Mais ou menos uns 2 reais para um pao de queijo pequeno e R$7 para 4 ou 5. (cotação jan/2016)

pontikege-pao de queijo em Hong Kong-abordodmundo

3) A peteca foi inventada em Minas Gerais e chegou em Hong Kong modificada joga-se com os pés! Eu e minha imaginação fértil já inventamos uma história (atenção- isso é totalmente especulação bem humorada). A peteca chegou aqui sem ninguém que soubesse explicar como jogar. Quando alguém disse que era um objeto do Brasil, eles foram logo pensando que, se é do Brasil, deve-se jogar com os pés, como futebol…

4) Hong Kong tem diversas montanhas e altas trilhas. A montanha abaixo é perto da Universidade e a vejo todos os dias.

Essa montanha em Kowloon Tong, Hong Kong é a minha Serra do Curral.

Essa montanha em Kowloon Tong, Hong Kong é a minha Serra do Curral.

Moramos atrás de uma montanha, em um lugar chamado Tai Wo. Subimos nela e deu para ver a China (prédios altos lá no fundo).

Montanha em Tai Wo. Os prédios altos ao fundo ja são na China.

Montanha em Tai Wo. Os prédios altos ao fundo ja são na China.

No entanto, uma grande diferença com Minas é um “apenas um detalhe”: aqui tem mar! Por todos os lados (Hong Kong é uma península e várias ilhas), como podem ver ao final desse vídeo: montanhas e mar.

Agora, olhem este pôr-do-sol, que vejo da janela do escritório, com as montanhas e o mar. Faço questão de vê-lo todo dia que a poluição deixa. Não é lindo?

Por do sol entre montanhas e mar (o mar está entre os prédios, no centro da foto)

Por do sol entre montanhas e mar (o mar está entre os prédios, no centro da foto)

Feliz… 2016?

Já passei Natal e Reveillon fora do Brasil algumas vezes. Esse ano foi especialmente difícil. Primeiro porque no início de dezembro perdemos minha tia-mãe-anja Elvira e foi duro não estar com minha família nesse momento.

Além disso, não senti aqui o espírito natalino ou de ano novo. Eu expliquei no post sobre o natal que aqui não há muita celebração desse dia. Para se ter uma ideia, a universidade estava de recesso por 3 semanas, incluindo 25 e 31 de dezembro, mas muitos dos meus colegas chineses não foram para casa visitar a família, pois preferiram deixar para ir em fevereiro, no ano novo chinês, ainda que serão só 5 dias de recesso.

Em Hong Kong, pela influência ocidental, no dia 31 de dezembro até há um show de fogos de artificio, mas todos falam que não se compara ao do ano novo chinês. De qualquer forma, quis verificar e formamos um grupinho de estrangeiros para celebrar juntos. Nele, estavam 3 iranianos. Na conversa eles disseram que no Irã e países pérsias, o ano novo seria só em março. O calendário persa marca o primeiro equinócio de primavera como o primeiro dia do ano. É o Nowruz. E o início do calendário persa é a Heriga ou Medina, peregrinação do profeta Maomé à Meca, em 621 DC. Ou seja, eles estão agora, até março de 2016, no ano 1394!

Isso quer dizer que passei a virada de ano cercada de chineses e iranianos, povos que têm sua passagem de ano em uma data diferente do dia 31 de dezembro.

Mas a curiosidade não parou por aí.

No dia 1 de janeiro de 2016 (para mim, mas não para os chineses ou persas), encontro no elevador um conhecido da Etiópia. Para puxar conversa que não fosse sobre o tempo, perguntei o que ele tinha feito no Reveillon. Ele disse que nada, que dormiu. Diante da minha surpresa, justificou:

– É que para mim não foi ano novo. Na Etiópia comemoramos a passagem do ano em Setembro (dia 11 ou 12). É o Enkutatash.

Aquele país usa o calendário egípcio, e está, até setembro de 2016, no ano 2008.

Eu sabia que dois terços da população mundial não seguem o cristianismo e que, por conseguinte, nosso calendário gregoriano não é único no mundo. No entanto presenciar isso fora da minha cultura e estranhamente sentir-me em minoria no ambiente em que estava, além de divertido, me deu uma noção da minha ínfima posição nesse mundo. Uma das lições de se morar fora de nossa cultura e ver o mundo com outra lente cultural é exatamente a humildade. A viagem pro outro lado do mundo me deslocou não só no espaço mas também no tempo. Afinal, já que estou aqui, nem sei mais se estou em 2016. De qualquer forma, seja qual for a data da sua virada, se você entrou ou vai entrar em 2016, 1395, 2009 ou ano do macaco: que tenha um excelente Ano Novo!

E independentemente de como contamos nossos dias e anos, que lembremos de fazer o melhor cada dia, aproveitando o tempo que temos com as pessoas que amamos.

Até que gostei dos fogos em Hong Kong. Muito bonito!

Natal em Hong Kong?

Hong Kong é o lugar com mais feriados do mundo. Posso escutar daqui o pensamento de alguns: mais que o Brasil? Sim, bem mais. Em 2015 foram 18. Teve uma semana em setembro que foi feriado na segunda e na quinta. Isso porque junta os feriados de duas religiões (cristã e budista), além dos cívicos e os relacionados a momentos do ano, como ano novo (o chinês e o ocidental), meio do outono, equinócios e solstícios. O feriado mais importante, cheio de rituais, é o ano novo chinês, que coincide com nosso carnaval.

E o Natal, como é aqui, em um país cuja maioria de pessoas não é cristã?

Pela forte presença de estrangeiros, sim, comemora-se o Natal. É até feriado na teoria, mas na prática quase todo comércio e instituições privadas abrem. As escolas estão de recesso por 3 semanas, entre o Natal e primeira semana de janeiro. Como no hemisfério norte o ano escolar vai de agosto a junho este é o recesso do meio do ano. Assim como no Brasil temos recesso em julho.

Seguindo a tradição dos britânicos, comemora-se o natal no dia 25. Dia 24 não há nada. Além disso, ainda como na Grã Bretanha, o dia 26 também é feriado. Lá o feriado é chamado de Boxing Day porque tradicionalmente os ricos davam uma caixa com presente para seus empregados- uma das teorias é que os empregados trabalhavam no dia 25 e no dia seguinte podiam comemorar o Natal com a própria família. No entanto, aqui o feriado não é conhecido como Boxing Day, mas só como “o dia após o Natal”.

Voltando à celebração aqui: tudo abre normalmente até tarde no dia 24 e no dia 25 abrem até 18hs, ou seja, apenas fecham mais cedo (geralmente o comércio é até 22hs). Alguns estabelecimentos nem mudam os horários. Para vários chineses, o mais importante é o dia do solstício de inverno, que ocorre perto do Natal: 21 ou 22 de dezembro. Apesar de não ser feriado oficial, os estabelecimentos fecham mais cedo. É tradicional fazer uma janta com família em que deve-se comer uma comida chamada tangyuan. Uma amiga daqui não encontrou a família no Natal (sexta), mas na terça, dia do solstício.

Desde o início do mês, a cidade está enfeitada com luzes, os shoppings possuem Árvore de Natal e Papai Noel para tirar foto. No entanto, não percebi movimento maior de compras, como no Brasil, e desde o início de dezembro as lojas estão em liquidação!!! Isso indica que não é uma época forte de vendas…

Enfim, espero que tenham tido um Feliz Natal e desejo a todos e todas um Excelente 2016!

Decoração de Natal nas ruas de Hong Kong

Decoração de Natal nas ruas de Hong Kong

E como é que fala Feliz Natal em cantonês? Clique abaixo para ver minha amiga Steffi pronunciando.

Recohecem essas músicas? Duas canções de Natal, em cantonês, em um culto de Natal do qual participei em Hong Kong.

Quase todo mundo que eu conheci aqui, ao me apresentar e dizer que sou brasileira, faz uma cara de surpresa e me pergunta:

– Como você veio parar aqui?

Ainda vou ter coragem para responder:

-De avião, uai!

Latinos em geral são raros aqui. Ainda não encontrei nenhum brasileiro… Há muito estrangeiro em Hong Kong, mas a maioria é asiática ou europeia. Alguns australianos e norte-americanos completam o cenário de estrangeiros loiros de olhos azuis. E eles se concentram na ilha de Hong Kong, que é o centro. Nós estamos morando bem afastados do centro, literalmente, quase lá na China. O fato de que muita gente aqui não está acostumada com latinos gera situações inusitadas.

Uma menina de 20 anos, ao saber que sou brasileira, disse:

– Brasil? Quando penso em Brasil, penso em mulher com bunda grande.

Isso demonstra um pouco também a falta de tato do pessoal daqui. Falam o que pensam, não têm medo de desagradar ou ofender.

Agora o que tem me incomodado mesmo é o tanto que eles encaram. Olham de cima para baixo, dos pés à cabeça. Alguns rindo, outros com cara de interrogação. E não estou falando só de homens, mas também as mulheres e as crianças (estas últimas até compreendo). É um olhar de curiosidade e eles não olham discretamente ou tentam disfarçar. Ficam lá na minha frente, balançando a cabeça de cima para baixo mesmo estando pertinho de mim como, por exemplo, dentro do elevador. Quando estou com o Chris e ele percebe, ele até arrisca um “hello” para ver se a pessoal fica sem graça, mas não funciona sempre. Será que me acostumo um dia?

De outra feita, cheguei em um bar para encontrar um amigo. Por sua vez, ele havia levado outros amigos. Fui me apresentando, e um desses amigos, antes mesmo de me dizer oi, imediatamente perguntou:

– De onde você é?

– Sou brasileira.

– Sabia que era de um desses lugares exóticos.

Exótica, eu? Como assim? Para mim, exóticos são os tailandeses ou indonésios. Mas aqui são só vizinhos…. É… tudo depende mesmo do ponto de vista (o que me lembra este post antigo Gregos x Turcos).

 

ilha de hong kong-abordodomundo

Visão da ilha de Hong Kong, com seus arranha-céus. Ali a concentração de estrangeiros é maior.

tai wo com vista para china-abordomundo

Nós estamos morando afastados do centro. Subimos nessa montanha atrás de casa e deu para ver até a China (os prédios altos lá no fundo)

Para minha surpresa, um dos assuntos que mais rendeu comentários do post anterior, sobre os primeiros choques culturais em Hong Kong, foi o uso de sombrinha para se proteger do sol. Algumas pessoas comentaram que em cidades do Brasil isso também acontece. Pois bem, resolvi ir a fundo e descobri que, aqui, o buraco é mais embaixo. Comecei a perceber outras coisas e, perguntando e lendo, vi que o pessoal aqui tem pavor de pegar uma corzinha.

Nessa parte da Ásia “mais rica” (China, Japão, Coreia) a cor da pele é no geral mais clara que a de outros países asiáticos como Filipinas, Índia e Indonésia. Portanto, manter a pele mais clara seria uma maneira de diferenciar-se dos vizinhos mais pobres. Mas não é só isso. Em uma sociedade super hierarquizada, a questão é que a cor da pele está associada a um status: quanto mais clara, maior a posição social da pessoa. Isso porque quem faz trabalho manual geralmente fica exposto ao sol e tem a pele mais escura. Olhem que eu não estou nem falando da cor de pele negra. A questão é mesmo de tom.

Isso faz com que haja inúmeros produtos de beleza para… embranquecer a cara! Cremes, esponjas, esfoliantes que, sem discrição alguma, prometem deixar a cara mais branca.

Produtos que prometem embranquecer o rosto.

Produtos que prometem embranquecer o rosto.

whitening product

Essa máscara do panda é até um pouco assustadora. rsrs

Essa máscara do panda é até um pouco assustadora. rsrs

Além disso, na piscina da faculdade vejo mulheres nadando com maiô de manga comprida. E vi que inventaram até o facekini- uma espécie de touca de natação que cobre a cara inteira. Tudo para evitar o bronzeamento.

Photo: Wang Haibin/Xinhua Press/Corbis. Essa foto é da China, mas em Hong Kong  a moda também pegou.

Photo: Wang Haibin/Xinhua Press/Corbis. Essa foto é da China, mas em Hong Kong a moda também pegou.

Relato aqui os primeiros choques culturais, isto é, as coisas que mais me impactaram nos primeiros dias em Hong Kong, por ser diferente de nossa cultura:

cena comum: pessoas usando máscaras cirúrgicas em lugares públicos

cena comum: pessoas usando máscaras cirúrgicas em lugares públicos

1) Primeiríssimo choque ocorreu já no aeroporto, na chegada. Vários funcionários usando aquelas máscaras cirúrgicas. Depois percebi que é só sair à rua e ver o quão comum é encontrar várias pessoas com a máscara. Para mim, dá impressão que a pessoa está morrendo, não pode nem pegar um resfriado. Mas aqui o pessoal trata como medida de prevenção de gripes. Quem trabalha com muito público, usa para se proteger e quem está resfriado, usa para não contaminar as pessoas. No meu segundo dia, fui à universidade pela primeira vez e, em uma palestra, a professora usava a tal máscara. Achei muito estranho, como algo que impedia a comunicação própria. Claro que ficou difícil de entender. Aliás, isso leva ao choque cultural número 2:

2) Muita gente aqui não fala inglês, apesar de Hong Kong ter pertencido à Inglaterra por mais de 100 anos e ser oficialmente bilíngue. E dos que falam, existem vários cujo nível não é muito bom. O sotaque é forte e no início até meu esposo, britânico, tinha dificuldade de entender as pessoas.

3) Quanta gente! Muita gente nas ruas, no metrô, em todos os lugares. A densidade populacional daqui é uma das mais altas do mundo: 6.500 pessoas por km2. Ok, São Paulo tem mais de 7000 por km2. Acontece que São Paulo tem uma área de quase 8000 km2 e Hong Kong tem apenas 1100 km2, dos quais 70% é área verde ou praia. É tanta gente junta que para andar na rua muitas vezes tenho a sensação de que estou em um videogame, tendo que desviar das pessoas, tentando não derrubar ninguém nem ser derrubada.

4) Todo mundo que está sozinho fica de olho no celular, grudado, quase um caso de amor com o aparelho. Gente, as pessoas caminham olhando para o celular! Numa estatística rápida que eu fiz olhando sobre os ombros das pessoas vi que 50% das que estão ”caminhando e celulando” estão em redes sociais como Wechat (o whatsapp da China) ou Facebook e os outros 50% estão… jogando CandyCrush! O pessoal é viciadíssimo nesse jogo! Andando e jogando. Em vários lugares, como shopping centers, há estações gratuitas, com tomadas e cabos, para recarregar o aparelho, qualquer que seja a marca.

No Metrô. Quantas pessoas não estão envolvidas com o celular?

No Metrô. Quantas pessoas não estão envolvidas com o celular?

Recarregador gratuito de celular, comum em qualquer shopping de Hong Kong.

Recarregador gratuito de celular, comum em qualquer shopping de Hong Kong.

5) Isso prova a segurança do lugar, pois ninguém tem medo de ser roubado (só há perigo de trombarem ou caírem e o metrô tem vídeos engraçados sobre isso, alertando as pessoas para não ficar olhando no celular o tempo todo). Aliás dois sinais de segurança: as pessoas dormem profundamente no metrô, ônibus e até em algum canto à sombra, como bancos e passeios públicos, no intervalo do almoço. Agora o que mais me surpreendeu foi a estação perto da nossa casa: várias pessoas vêm de bicicleta até a estação para pegar o trem pro trabalho. Deixam a bicicleta na rua o dia inteiro até regressar. Alguns deixam trancada em grades, mas outros não. Só uma correntinha que prende a roda, mas não impede ninguém de pegar a bicicleta. De fato, Hong Kong está entre as 10 cidades mais seguras do mundo.

Bicicletas ficam o dia inteiro na rua e não são roubadas.

Bicicletas ficam o dia inteiro na rua e não são roubadas.

 

6) Ninguém atravessa a rua com o sinal de pedestres vermelho, mesmo que não venha nenhum carro. Se alguém atravessar, pode saber que não é alguém local. Turista ou estrangeiro. Como eu, por exemplo. Hehe.

7) Faz muito calor aqui no verão. Chegamos em agosto e muita gente, homens e mulheres, usam sombrinhas para se proteger do sol forte. Adorei a ideia. Ajuda mesmo. Não sei com não fazemos isso no Brasil.

Sombrinhas para se proteger do sol

Sombrinhas para se proteger do sol

Esses foram os primeiros aspectos que deu para notar, mas tem muito mais que vou compartilhando com vocês, a bordo do outro lado do mundo…

Muito se fala sobre as vantagens de se morar no exterior: ter experiência de vida, praticar outro idioma, alargar os horizontes, ver a própria cultura de fora, adquirir flexibilidade, tolerância, adaptabilidade, etc.

O outro lado da moeda é menos comentado: como adquirimos tudo isso. Por 6 anos fui responsável pela Assessoria de Relações Internacionais de uma faculdade em Belo Horizonte e sempre dizia aos estudantes interessados em intercâmbio, que nem tudo são flores: não há crescimento sem sofrimento. Acredito que essa experiência não é para todo mundo em qualquer momento. Claro que todos podem se beneficiar da experiência mas é preciso estar preparado e aberto para se sentir em desconforto. Mudar para um lugar é diferente de visitar como turista. Quando viajamos a um lugar não precisamos passar por processos cotidianos como montar casa, contratar serviços, etc. Quando selecionava os estudantes para intercâmbio eu via que alguns, embora desejassem a experiência, não estavam dispostos ou preparados para deixar sua zona de conforto.

Mudar para outro país traz à tona diversos sentimentos. É uma verdadeira montanha-russa de emoções. Há um gráfico de M Barker, que ilustra bem isso. Quem já viveu, pode confirmar.

adapcatacao cultural

Eu já morei nos EUA, na Espanha e me mudei há pouco mais de um mês para Hong Kong. Posso dizer que o processo inicial de me encontrar em uma cultura que não é a minha, não foi ficando mais fácil. Claro que as experiências anteriores me ensinaram alguns truques que facilitam a vida. Mas o processo tem sido emocionalmente desgastante. Talvez seja também porque a cultura asiática é mais distante da minha cultura latina, do que a cultura norte-americana ou europeia. Mas isso era exatamente uma das coisas que mais me atraíam em vir pra cá: experimentar algo totalmente novo. Só que isso não minimizou o choque.

welcome to hong kong

Mas o que significa exatamente viver o desconforto?

Claro que há diversos fatores que influenciam no grau de desconforto: o tempo previsto de permanência (aguentar uma situação sabendo que serão 6 meses é diferente de pensar pro resto da vida), a fluência no idioma local, se muda sozinho ou acompanhado, se o objetivo é estudar ou trabalhar, se já se conhecia o lugar antes, se há amigos prévios vivendo no novo local, se já se chega com moradia definida, o que está acontecendo com a família e amigos no país de origem (em outras palavras, o que está perdendo), etc, etc

Mas no geral, mudar para o exterior significa:

  • Evitar o desespero ao chegar em um lugar onde nada te é familiar. As ruas, a comida, as pessoas… É não saber como fazer algumas coisas básicas, como: comprar ticket de metrô, pagar conta em uma loja ou restaurante, dar gorjeta, etc
  • É ver abaladas várias coisas que você dá como sentado. A maneira de fazer as coisas do dia a dia em outra cultura, é diferente. Pode ser o modo de lavar os pratos, a maneira de interagir com as pessoas ou utensílios usados para comer. E não poder se desesperar quando acha que o país complica demais para fazer algo que em sua cultura é muito mais simples. Aliás, é comum ficar comparando tudo com nossa cultura: no meu país não é assim, lá é _______(diferente/melhor/pior).
  • É ficar perdido. Várias vezes. Ainda mais se as indicações estiverem escritas em idioma que não entende. A tecnologia ajuda bastante, mas ainda temos que tirar o mapa ou aplicativo da bolsa toda vez que alguém tenta explicar onde é algo. É escutar um endereço e não ter a mínima ideia de como chegar lá e gastar tempo analisando o mapa e meios de transporte. As ruas, os lugares demoram um pouco para se tornar familiares.
  • É aguentar a burocracia de papéis e visitas a órgãos públicos até ter todos os documentos em ordem. É ter que decorar novos números de telefone, identidade, etc.
  • É ter que ter muita muita muita paciência. Com o lugar em si, mas principalmente consigo mesmo. Quando errar o caminho, quando não conseguir entender algo, quando não conseguir tomar uma decisão, pois não conhece todo aspectos.
Estava escaneando em um computador com a interface em inglês, mas ele me sai com esta pergunta. Fiz uni-duni-tê para escolher, mas deu errado e tive que começar tudo de novo!

Estava escaneando em um computador com a interface em inglês, mas ele me sai com esta pergunta. Fiz uni-duni-tê para escolher, mas deu errado e tive que começar tudo de novo40

  • É pedir uma comida em um restaurante tendo mais ou menos uma ideia do que pode vir e quando chegar, vê que não nem parece com o que pensava. É todo dia viver na incerteza do que vai comer e experimentar sabores e texturas novas, algumas não muito agradáveis.
  • É saber que provavelmente fazer algumas coisas vai demorar muito mais que no próprio país. Até nos acostumar, toda ida ao supermercado é uma verdadeira experiência exploratória. Eu gastei um dia inteiro e tive que ir a 3 bancos diferentes para conseguir abrir uma conta e, mais de duas semanas depois, ainda não tinha acesso à ela (mas esta história vale um post separado, aguardem).
  • É não saber onde encontrar as coisas. Quando estamos em nossa cidade, sabemos aonde ir quando queremos algum produto. Em Barcelona passei um mês procurando um cosmético que no Brasil encontro facilmente nas farmácias, sem saber como era o nome em espanhol e sem que ninguém entendesse o que eu queria.
  • É não encontrar algumas coisas mesmo. Já entrei em dezenas de lojas tentando encontrar condicionador sem enxágue. Simplesmente não existe (minha explicação é que, como o cabelo no geral aqui é liso, não resseca tanto e não precisa do cuidado extra. Ou é questão de hábito mesmo, sei lá). Vou ter que importar ou viver sem. Aliás, “aprender a viver sem” é comum. O que é essencial para a gente pode não fazer sentido na outra cultura e o que é essencial para eles a gente pode nem achar útil. Quase ninguém aqui tem forno em casa, mas todos têm panela de arroz elétrica. Hã?
  • É estar disposto a mudar hábitos, pois alguns gestos, expressões e atos podem ofender na cultura em que se está.
Esse pessoal pode estar dando boas vindas ao Hall 9 para todo mundo, exceto aos brasileiros. rsrs

Esse pessoal pode estar dando boas vindas ao Hall 9 para todo mundo, exceto aos brasileiros. rsrs

  • É tentar achar o equilíbrio entre adaptar-se à cultura em que escolheu viver e respeitar seus próprios valores.
  • É pagar mico, dar manota, ficar sem entender, usar gestos, apontar para coisas, baixar aplicativos de tradução, etc. (já tenho uma seleção aqui que vou compartilhar nos próximos posts).
  • É não ter ideia se algo é caro ou barato. A tendência inicial é ficar convertendo preços e comparar: mais caro ou barato que o Brasil. Mas isso não quer dizer nada, pois o custo de vida é diferente em cada lugar. O que tem que saber é comparar o preço com outros lugares do mesmo país: a comida é cara não se no Brasil 5 pessoas comem com aquele valor, mas se você sabe que em outro restaurante na rua de trás, o mesmo prato é a metade do preço.
  • É sentir saudades e aguentar dias em que a única coisa que você quer é comer arroz e feijão, poder falar sua língua, abraçar seus velhos amigos que te conhecem e te entendem desde sempre e ganhar um cafuné da mãe.

(quando encontramos um pedacinho da nossa terra então, a saudade aperta. Claro que gritei para banda: sou brasileira)

Bom, minha intenção não é assustar ou desmotivar ninguém. Pelo contrário, sou incentivadora do “sair da zona de conforto”. Esses choques culturais são mais na fase inicial. Após algum tempo, você não só encontra os produtos, conhece a comida e encontra lugares de olhos fechados, como acaba até dando informação. Aguentar o desconforto inicial nos dá uma sensação de que vencemos. Até rimos dos apertos iniciais. E quando superamos isso e nos adaptamos à cultura, começamos a desfrutar.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 948 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: