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Afinal de contas, o que eu estou fazendo em Hong Kong?

Eu vim fazer doutorado. Tudo começou quando minha amiga Christine, que está fazendo doutorado em Singapura, viu uma palestra de um professor de Hong Kong, que falou sobre minha escola e ela achou a minha cara. A School of Creative Media (escola de mídia criativa), na City University of Hong Kong, diz ser a única no mundo que combina mídia e arte. Entrei no site, vi os recursos e apaixonei-me. Pesquisando sobre doutorado, vi que havia a possibilidade da bolsa do governo, que se chama Hong Kong PhD Fellowship Scheme. É voltada para atrair estudantes internacionais, interessados em cursar o doutorado em 8 universidades daqui. Dizem que essa é a bolsa que melhor paga no mundo. Pode ser, mas com o custo de vida aqui sendo literalmente o mais caro do mundo (veja notícia em inglês aqui  ou notinha em português aqui), a bolsa mal é suficiente pra cobrir os gastos.

scm cityu

Então me preparei por um ano, fiz um projeto para estudar o fenômeno de selfies e participei da seleção. Com direito a entrevista telefônica de madrugada, a universidade me garantiu a vaga. Quando saiu o resultado da bolsa do governo, e eu fui selecionada, a universidade me ofereceu uma bolsa própria, com moradia grátis por um ano e isenção das mensalidades.

A bolsa do governo, além do pagamento mensal, inclui uma verba para participar de conferências internacionais e ainda aumenta um pouco o valor se eu passar um semestre no exterior. Não à toa, é bastante concorrida. Quando tentei, em 2014, foram mais de 3,600 candidatos do mundo todo, para cerca de 200 vagas. Enfim, com essas duas bolsas, não tinha como eu não vir. Para saber mais sobre a bolsa do governo, clique aqui)

Cerimônia de recebimento da bolsa Hong Kong Fellowship Scheme

Cerimônia de recebimento da bolsa Hong Kong Fellowship Scheme

O sistema educativo de Hong Kong é baseado no modelo britânico. O nível superior aqui é todo em inglês (aulas, trabalhos, comunicação interna) então não precisarei escrever uma tese em cantonês ou mandarim. Ufa!

A City University of Hong Kong, ou simplesmente, CityU, é uma universidade jovem e ano passado foi eleita a 57a melhor universidade do mundo, de acordo com o QS World University Rankings. Além disso, é a 7a melhor universidade da Ásia (QS University Rankings: Asia) e a 4a do mundo entre as 50 que têm menos de 50 anos (world’s top 50 universities under 50).

Após quase um ano aqui, posso destacar algumas coisas que mais me chamam a atenção, talvez pela diferença com o Brasil.

A CityU oferece uma quantidade enorme de cursos e atividades extraclasses, gratuitos ou praticamente gratuitos. Eles têm uma preocupação muito grande com o bem estar dos alunos. Acho que é porque os chineses são meio bitolados com estudo e competitivos. Se deixar, eles ficam só estudando e não fazem outra coisa. Qualquer dia da semana, até no final de semana, e qualquer horário, inclusive madrugada, tem muita estudando na biblioteca ou outros cantos. Então os cursos vão desde crescimento pessoal (como liderança), até hobbies (ex: massagem, pintura), passando por orientação para o mercado (ex: como fazer currículo, passar por entrevista). Além disso, há diversos cursos de educação física e os alunos de graduação ainda ganham 1 crédito por semestre para participar. Além dos esportes tradicionais como natação, volêi e tênis de mesa, tem também: dança, yoga, pilates (já fiz nos dois semestres que estou aqui), arco e flecha, golf, esgrima e escalada.

Como se fosse pouco, eles organizam passeios turísticos e culturais para quem quiser (inscrição por ordem de chegada) e cobrem as entradas e 60% do transporte e alimentação!

Eles investem pesado na cultura de internacionalização e possuem centenas de programas de intercâmbio com diversos países (Brasil ainda não). Os programas são de semestre no exterior, voluntário internacional e estágio no exterior. Há também bastante estudantes internacionais aqui. Por isso, há um projeto com alunos de graduação, para aulas básicas de cantonês para estrangeiros. Lógico que eu participei. Além de ajudar com vocabulário básico, ainda ganhei umas amigas fofinhas que me ajudam por telefone caso necessite algo urgente e não consiga me comunicar. A universidade separa verba para estes alunos e pro curso. Na última aula, deu dinheiro para que nós, os aprendizes, fôssemos à praça de alimentação e comprássemos em cantonês a comida.

aula de cantonês

aula de cantonês

Confraternização da aula de cantonês

Confraternização da aula de cantonês

A CityU tem uma residência universitária bastante grande, com capacidade para 3.700 alunos. Um prédio é só pra alunos de graduação. Foi onde eu tive o quarto este ano. Os quartos são pequenos, assim como as moradias em geral por aqui. Confesso que não é muito confortável, mas o aluguel é barato. Hong Kong tem um sério problema com preço de moradia e ninguém pagaria o mesmo preço da residência em outro lugar, nem dividindo apartamento. Essa é a grande vantagem, além de fazer amizades, ficar perto da universidade e participar dos eventos semanais. Com isso, sempre tem mais alunos querendo morar lá do que vagas, então eles fazem sorteio.

A biblioteca merece um detalhamento. Adoro! Eu fico impressionada e procuro aproveitar ao máximo os muitos recursos. O acervo é bem completo, até agora tinha todos os livros que precisei. Mas, caso necessite de algum livro que só tenha em outra biblioteca daqui, posso pegar emprestado por meio das parcerias da biblioteca.

O espaço da biblioteca em si é grande, bonito e há vários cantinhos para diversos fins. Tem até duas impressoras 3D para nosso uso. Os recursos são modernos e ela promove atividades como cursos, oficinas e palestras. Já fui a treinamentos diversos e palestras sobre publicação acadêmica. Além disso, vive promovendo concursos que desenvolvem habilidades nos alunos, com prêmio e tudo. Eu tirei primeiro lugar em um concurso de histórias de viagem e terei a minha publicada em um livro!

Agora, o que mais uso é a coleção de mídia. Super completa. Possui vários filmes clássicos que não consegui achar no Brasil, além de documentários e animações mais raros. O melhor: se não tem algum vídeo ou filme que preciso, posso solicitar e eles adquirem. Tem até várias séries de tv completas! Pela biblioteca ainda, temos acesso gratuito a recursos que seriam pagos, como alguns jornais acadêmicos e um software que administra as referências facilmente (eu acho essa parte das referências chata e trabalhosa e o software veio como um bálsamo para mim, que agiliza e automatiza o processo).

Por fim, nós, pós-graduandos, temos acesso a diferentes laboratórios com computadores e softwares modernos. Para minha mesa de trabalho, pude escolher entre um mac e pc, tenho acesso a internet muito boa e espaço para guardar várias coisas (espaço é um problema sério aqui). E meu escritório, que compartilho com outros alunos e professores, tem uma linda vista!

Se faltou algum detalhe que você gostaria de saber sobre a vida aqui, não deixe de me escrever!

minha mesa de trabalho

Com vocês, mais algumas coisinhas particulares de Hong Kong, daquelas que nos deixam um ponto de exclamação.

Já vi várias pessoas saindo com pijama. Geralmente é pijama de flanela e estampa de bichinhos.

Família unida pelo pijama

Família unida pelo pijama

pijama na rua em Hong Kong- abordodomundo

Hong Kong é região suscetível a tempestades e tufões. Há um observatório do clima, que solta uns alertas de vento forte, furacão e tempestade. Tem um sistema de números e cores de acordo com a severidade. Eu baixei o aplicativo e tive que desativar as notificações porque todo dia tinha um alerta, de vento ou chuva. As programações oficiais costumam ter dias e horários alternativos caso haja alerta vermelho de tufão ou furacão. É engraçado pois você recebe um email com um dia e horário e um plano B caso seja preciso cancelar por causa do clima. Abaixo o anexo que veio no email sobre a matrícula (em inglês), só com os dias e horários alternativos.

Anexo com dias e horários alternativos de matrícula caso no dia programado haja algum alerta vermelho.

Anexo com dias e horários alternativos de matrícula caso no dia programado haja algum alerta vermelho.

Aqui é cheio daquelas máquinas em que se coloca moeda e cai uma bala ou brinquedinho. Mas alguns dos brinquedinhos são demasiado exóticos para meu gosto.

Este é de gatos fantasmas.

Este é de gatos fantasmas.

Diversos donos de comércio (restaurantes, lojas, imobiliárias, qualquer negócio) possuem altares no chão, ao lado da porta, com imagem de alguma entidade. Em busca de agradá-la para que o negócio prospere, eles colocam oferendas de comida e incenso. Sempre me pergunto quem afinal come as oferendas.

altar entidade comercio Hong Kong abordodomundo

Muitas pessoas levam o cachorro para passear… em carrinhos de bebê!

cachorros carrinho bebe Hong Kong abordodomundo

cachorros carrinho bebe Hong Kong abordodomundo

Essa é super fashion, carrinho rosa e tudo combinando

Essa é super fashion, carrinho rosa e tudo combinando

 

Algumas pessoas me chamam de Ana Clara, outras só de Ana ou Clara ou ainda Clarinha. Já estou acostumada a pensar qual dessas variações falar de acordo com quem converso, mas nunca imaginei que, ao mudar de país, mudaria também meu nome: Olívia. Já são 3 professores que me chamam assim. Para entender a razão, vou explicar como funcionam os nomes por aqui.

Damos por sentado que os nomes são mais ou menos do jeito que estamos acostumados. Mas aqui em Hong Kong e outros países asiáticos, o sobrenome vem primeiro. Muitas vezes se escreve em maiúsculas. Acontece que, pela questão da língua só conter monossílabos, os nomes e sobrenomes também em geral só contêm uma sílaba cada. E no geral é só um sobrenome e um nome, ainda que alguns contenham um nome do meio.

Por exemplo:

ZENG Jin

ZHANG Wei

Diz a lenda que só existem uns 100 sobrenomes chineses. Mesmo que seja o dobro ou triplo, não significa muito numa população contada em bilhões. Com apenas um nome e um sobrenome, imagino o quanto deve dar de homônimos!

O sobrenome mais comum na China, tipo o nosso Silva, é Ng. Se pronuncia como mm. Isso mesmo, nem se abre a boca.

Quando alguém se apresenta e diz o nome, é algo rápido e só entendo as vogais, não consigo imaginar como é o nome escrito, o que faz ficar mais difícil de decorar o nome… Mas não é só no meu caso. Os nomes são tão complicados para os estrangeiros entender, que muitos chineses adotam um nome “ocidental”. Atualmente os pais podem colocar o nome no filho ou filha em inglês, ou até como um nome do meio. Mas, no geral, cada um escolhe na adolescência, o seu próprio nome ocidental. Se for pensar bem, é até legal isso, poder escolher o próprio nome. Mas se nos nomes em chinês eles costumam pensar em qualidades que querem que os filhos tenham, em inglês às vezes eles vão mais pelo som do que pelo significado. Isso gera alguns nomes e combinações de nome e sobrenome divertidíssimas para quem fala inglês.

Talvez o exemplo mais popular é o Never Wong (never wrong em inglês é: nunca errado).

Na padaria que frequentamos, há duas atendentes que fazem o Chris corar: Licky e Kinky (lick= lamber e kinky é algo como: excêntrico sexualmente).

Conhecemos também uma Underdog (oprimido/a).

Outros exemplos que não vi pessoalmente, mas que li que existem são: Coffee (café), Candy (bala), Pacman, Iceman (homem de gelo), Heman (como He-man, o héroi dos desenhos , mas nesse caso é uma mulher) e até Juicy Tang (algo como: Suco Tang)!

quer estudar inglês com o Never Wong (nunca errado(? curso de inglês aqui pertinho de casa.

Quer estudar inglês com o Never Wong (nunca errado)? curso de inglês aqui pertinho de casa.

Enfim, voltando ao meu caso. Eu e meus cinco nomes provocamos espanto e risos. Em formulários, o espaço pra preencher o nome é pensado para nomes curtos. Meu nome sempre fica maior e eu tenho que fazer duas linhas ou invadir outro campo… (foto).

Meus 5 nomes nunca cabem nos espaços feitos para dois nomes curtos...

Meus 5 nomes nunca cabem nos espaços feitos para dois nomes curtos…

Uma vez, tive que imprimir um formulário eletrônico na escola, e meu nome invadia o próximo campo, tapando o número da minha requisição. E não tinha como mudar dentro do sistema, encurtar o nome ou aumentar o espaço. Tiveram que aceitar eu colocando o número à mão, por cima.

No Brasil, sempre fui uma das primeiras na chamada da escola e já me acostumei a encontrar meu nome entre os primeiros de uma lista. Como aqui o sobrenome é primeiro, fico lá embaixo, no “O” de Oliveira, que é meu primeiro sobrenome, o da família da minha mãe. Mas ainda fica fácil de achar: meu nome sempre é o maior ou, quando em uma tabela, o único em linha dupla. Quando alguém quer  encontrar meu nome em uma lista, ao invés de tentar fazer entender meu nome, eu já digo: é o maior nome. Até agora, nunca falhou.

Com esta história, alguns professores, ao ler meu nome em uma lista, leem o primeiro nome que aparece: Oliveira. Não sei se eles pensam que deve ser meu primeiro nome, pois sou ocidental, ou porque o sobrenome não lhes é familiar, mas já são três professores que ao ler “Oliveira”, me chamam de Olívia. Nas primeira vezes até tentei dizer: “pode me chamar de Ana”, ou ainda ensinar a pronúncia correta. Mas não há como eles pronunciarem o Oliveira… E, como também devo estar pronunciando o nome de algumas pessoas aqui totalmente errado, quem sou eu para insistir? O fato é que já até acostumei a responder e olhar quando alguém me chama por um nome que nunca tinha feito parte da minha identidade: Olívia.

Continuando os posts sobre comida em Hong Kong, algumas curiosidades relacionadas a restaurantes. Mas, antes, uma ressalva: em Hong Kong há diversos restaurantes internacionais, cadeias estrangeiras que são iguais no mundo todo. As pessoas se referem a eles como restaurantes ocidentais. As curiosidades aqui mencionadas se referem aos restaurantes tradicionais, ou típicos, de comida local e frequentados principalmente pelo pessoal local.

Vocês sabem que aqui se come com palitinhos, ao invés de garfo e faca. Todos usam os palitinhos com a mão direita, mesmo canhotos. Talvez seja porque, pela falta de espaço típica daqui, alguns restaurantes possuem poucas mesas. Aí as pessoas compartilham mesa com desconhecidos e sentam bem pertinho. Se todos usarem a mesma mão para comer, evitam ficar esbarrando a mão uns nos outros. Aliás essa questão de restaurante apertadinho gerou uma história engraçada. No nosso segundo dia aqui, fomos a um desses locais. Na nossa mesa havia mais 6 pessoas. Quando a comida chegou, sem cerimônia ficaram observando o Chris, para ver se ele conseguia comer de palitinhos. Todos ficaram de olho nas mãos dele. Quando ele conseguiu levar a comida à boca sem cair, ouviu-se um rumor de admiração: ohhhh. Nesse episódio, tanta coisa resumida daqui: falta de intimidade, o modo como encaram sem cerimônia e como eles conseguem fazer uma onomatopeias em uníssono, parecendo que ensaiaram a surpresa: ohhh, ahhhh.

Voltando aos palitinhos, a comida então é preparada em pedaços do tamanho da mordida. Não é necessário faca, pois não há que partir nada. Há uma colherzinha de louça que serve de apoio. Alguns restaurantes, pensando nos estrangeiros, até oferecem garfo, mas não faca. Come-se em tigelinhas, o que facilita “empurrar a comida”, papel que a faca também faz.

Antes de vir, li sobre duas tradições. Uma vi que é verdade: ninguém coloca os palitinhos na vertical na tigela de arroz. Isso lembra as tigelas de incenso usada nos rituais para os mortos. Então fica associado à morte, o que deve-se evitar a todo custo.

Não coloque o palitinho na vertical em uma tigela de arroz. Fonte: Pinterest

Não coloque o palitinho na vertical em uma tigela de arroz. Fonte: Pinterest

No entanto, a tradição que diz que deve-se deixar um pouco de comida no prato, para mostrar que está satisfeito, não se mostrou realidade aqui. Até conversei com alguns locais sobre isso, eles dizem que já escutaram essa história, mas que não seguem…

Os restaurantes aqui não costumam ter guardanapo. É comum ver as pessoas carregarem lencinhos de papel e usarem como guardanapo…

Quando trazem a comida, você come na tigela em que veio a comida. Se há mais pessoas, a cultura é pedirem mais de um prato e compartilharem todos. Nesse caso, usam uma cumbuquinha e um pratinho pequeno, tipo pires, para auxiliar. Ou seja, todo mundo enfia os palitinhos na comida de todo mundo, pega seu pedaço e leva ao pires de apoio.

Muitas vezes, fazemos o pedido e eles trazem a conta antes de pedir, junto ou até antes da comida. Não é que querem nos expulsar. É só para adiantar. Se quiser pedir mais coisas depois, sem problemas. Eles trazem outra conta. Aí na hora de pagar, devemos perguntar se paga à mesa ou no caixa. Há os dois tipos, mas tenho visto mais o de pagar no caixa. Se for no caixa, levamos essa conta e acertamos lá.

Cuidado ao pedir água em um restaurante local: eles provavelmente vão trazer um copo de água fervida. É que a medicina chinesa não recomenda misturar coisas fria e quentes. Então, como a comida é quente, a bebida também deve ser. Então se você pede água, eles já supõem que é quente. A água da torneira aqui é potável, mas é bom saber que foi fervida, pois é mais esterilizada. Enfim, se quiser ter certeza de que é água fria, peça garrafa de água.

A maioria dos chineses toma chá na hora da refeição. Aliás, em muitos restaurantes você chega e eles já trazem o chá. Pode-se beber à vontade, e não cobram por ele. O chá vem em uma chaleirinha de louça. Quando acaba, se quiser mais, é só virar a tampa pra cima que eles repõem.

Termino esta série compartilhando a curiosidade que mais nos chamou atenção. Nos primeiros dias aqui, entramos em um restaurante e já foram nos trazendo chaleira com chá, copos e uma tigela. Não entendemos a tigela, mas colocamos o chá no copo e começamos a tomar. Chega um grupo e senta ao lado. Pegam o chá, viram na tigela e começam a lavar os utensílios no chá. Várias coisas nos vieram à mente: isso não é chá e estamos tomando! Isso é chá mas não de tomar. Será que é para tomar e lavar ao mesmo tempo? Por que cargas d’água eles estão lavando os utensílios? E por quê no chá?

Aí vimos que é comum que eles usem o chá para lavar os utensílios à mesa (veja vídeo abaixo). Parece que não confiam na lavagem dos restaurantes e o chá fervendo elimina bactérias e resto de comido. Esse chá que foi usado para lavar é descartado, mas eles continuam bebendo o chá da chaleira. Agora porquê usam chá e não água, ninguém soube me explicar. O que é poder da tradição…

Continuando o tema de comida em Hong Kong, compartilho mais curiosidades:

  • Algumas vezes a limonada aqui contém sal ao invés de açúcar. Nem sempre, mas não dominar o idioma pode trazer problemas. Eu pedi uma vez e veio com sal. É muito estranho, não consegui beber. Parece que no Brasil é usado como purgante, mas aqui não é o caso, é por gosto mesmo. Até para comprar pronto encontramos limonada com sal, então temos que observar para comprar a que tem açúcar.
Garrafa de limonada com sal

Garrafa de limonada com sal

  • Agora mais estranho que limonada com sal é beber vinagre. Isso mesmo. Vinagre de maçã, doce, é uma bebida aqui. Ainda por cima quente (eles preferem bebidas quentes para acompanhar a comida). Experimentei, não acreditando que era vinagre puro, pensando que o sabor devia ser um pouco diferente, mais “leve” ou doce, sei lá. Não é não, gente. É como beber vinagre quente.

 

  • No post anterior eu disse sobre minha dificuldade em reconhecer a comida pedida em restaurantes e sobre como as fotos ajudam nisso. Uma das razões pode ser a tradução mal feita ao inglês. Ou porque eles nomeiam a comida pelo que parece, não pelo que contém. Dois exemplos:

Na cantina da universidade, o cardápio diz: “Bolo de cenoura” (carrot cake/Luo Bo Gao). Mas não é bolo, não é doce, nem é feito com cenoura. Vejam a foto abaixo. É uma comida feita com nabo e às vezes ainda vem com molho picante.

"Bolo de cenoura" em Hong Kong

“Bolo de cenoura” em Hong Kong

Uma das comidas típicas de Hong Kong é o bolinho de abacaxi (pineapple bun/Bo Lo Bao). Mas… não contém abacaxi. É um bolinho doce, de farinha e ovos, e esse nome é porque a cobertura geralmente tem um formato em xadrez, que os chineses acham que parece um abacaxi. Julguem por vocês mesmos:

Bolinho de abacaxi não leva abacaxi. O nome é devido à semelhança com a fruta... Foto: http://ilovehongkong.org/unique-hong-kong-food

Bolinho de abacaxi não leva abacaxi. O nome é devido à semelhança com a fruta… Foto: http://ilovehongkong.org/unique-hong-kong-food

  • Há muitos estabelecimentos aqui só de sobremesa. São como restaurantes que só servem doces: você senta, escolhe do menu, pede e come sentadinho. Ou seja, após comer em um restaurante, as pessoas vão a um desses lugares e continuam a conversa, desfrutando dos doces. Há uma grande variedade de sobremesas. Além de várias opções de frutas, de acordo com a época, dominam os doces com textura gelatinosa, que pelo visto o povo aqui ama (muitas comidas, salgadas ou doces têm essa textura).
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Sobremesas gelatinosas, de manga

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O cardápio possui muitas opções

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  • Para minha decepção a culinária daqui não usa muito azeitona. Nos supermercados “normais” (os que têm aqui perto de casa), só existe uma marca, espanhola. Vem em uma latinha de 300 gramas que custa uns 10 reais. Só tem opção de preta sem caroço ou verde com pimentão dentro. E nem é muito saborosa. Para encontrar mais variedades (mas até agora não vi nenhuma com caroço), temos que ir aos supermercados mais internacionais e estar dispostos a pagar caro. Eu, que adoro azeitona, estou aprendendo a desapegar….

 

  • Além de arroz, o pessoal aqui é viciado em noodle (macarrão instantâneo, tipo miojo). Vários lugares em Hong Kong cheiram a isso. É tanta variedade, que os supermercados costumam ter um corredor, os dois lados, inteiro de noodle. O mais curioso é que, ao conversar com uma menina chinesa, que havia chegado a Hong Kong há uns 6 meses, perguntamos: quais as diferenças com sua cidade na China? O que você sente falta e não encontra aqui? Quando ela respondeu “noodles”, não conseguimos conter a cara de espanto. Ela explicou que na região dela, o modo de preparar (?!) e o tempero são diferentes daqui…
Prateleira de noodles. Todo supermercado tem duas. E essa é de um supermercado pequeno...

Prateleira de noodles. Todo supermercado tem duas. E essa é de um supermercado pequeno…

Como viram, em termos de comida, não falta criatividade aos chineses…

No próximo post: os hábitos relacionados aos restaurantes. Muito pano pra manga, muitas curiosidades divertidas. Até lá.

Comida em Hong Kong

Uma pergunta que várias pessoas têm me feito é sobre a comida em Hong Kong. Chegou a hora de começar a responder, pois o assunto rende mais de um post.

Já adianto que, mesmo se não fôssemos vegetarianos, seria difícil acostumar. É um dos pontos que os estrangeiros aqui têm mais dificuldade para se adaptar. Paradoxalmente, Hong Kong se vende como um paraíso gastronômico.

Em primeiro lugar, esqueçam essa história de comida chinesa. Além de não lembrar muito a comida dos restaurantes chineses do Brasil, na China, a comida difere por regiões. Não teria muito sentido dizer comida chinesa, assim como no Brasil não falamos “castanha do Brasil” (Brazilian nuts), como é mundialmente conhecida a nossa castanha do Pará. Em Hong Kong é a comida cantonesa e, segundo o pessoal daqui, a comida cantonesa é a melhor do mundo. (!?!?!)

Bom, o arroz aqui reina absoluto em todas as refeições. Café-da-manhã, almoço, janta. O arroz é grudadinho e sem tempero, inclusive sem sal. É quase como um pão, complementa a comida. No supermercado, são vários tipos de arroz e vendem em grande quantidade: os sacos são de 5, 10, 15 ou 25 kilos! Vejo várias pessoas saindo do supermercado com o saco grande nas costas, como se fosse saco de cimento.

O consumo é tão grande que há uma maior incidência de câncer de intestino, relacionado a uma substância contida no arroz. Por isso, os médicos chineses pedem exames, como colonoscopia, com mais frequência, como medida de prevenção ou detecção precoce do câncer.

Além de arroz, a culinária contém muita carne, vermelha, frango e bastante peixe e frutos do mar. Há até carne de cobra e tartaruga. Mas não posso debater a qualidade de nenhuma.

carne cobra e tartaruga

Quem quiser comer carne de cobra ou tartaruga…

Há várias espécies de cogumelo. Tenho a impressão que são preparados para parecer carne: cheiro, textura e gosto. Como muita gente é vegetariana por questão religiosa (budismo), devem ficar felizes por comer “carne falsa”.

No entanto, como meu problema é aversão à carne, não consigo comer comidas que parecem com carne…

Como vegetariana, peno pra comer nos restaurantes, mesmo os vegetarianos. São fartos em carne falsa e verdura para eles é praticamente sinônimo de repolho fervido ou mesmo cogumelos.

Aprendi a não pedir nenhum prato com cogumelo, mas nem por isso acerto. Há pouco tempo, pedi um arroz com verduras em um restaurante vegetariano, pensando que não tinha como errar. Mas veio um arroz cheio de glúten (parecendo carne), cogumelo e só uns pedacinhos de cenoura e cinco ervilhas! Como assim?

ARROZ com vegetais

Arroz com vegetais. Quantas verduras vocês conseguem ver?

Aliás, isso é super comum. Você lê no cardápio uma comida, imagina como ela é, mas quando vem, não é nada do que pensamos. Saí com 3 amigas estrangeiras e pedimos 4 pratos diferentes. Quando chegaram, nenhuma conseguia reconhecer o prato que tinha pedido, pois era  diferente da imagem mental que tínhamos do que viria. Acabamos compartilhando tudo. Por isso, o bom é ir a restaurantes que têm fotos das comidas, no cardápio ou nas paredes, o que é comum.

Realmente, não entendo porque não oferecem mais verduras e legumes nos restaurantes, pois há grande variedade. Por exemplo, há muitos mais tipos de verdura verde escura, tipo couve, do que no Brasil. As frutas também abundam. Enfim, a minha saída é cozinhar em casa.

A boa notícia para os vegetarianos com intolerância à lactose, como nós, é que mais de 80% dos asiáticos são intolerantes à lactose. No Brasil, o que não tem carne geralmente tem queijo. Aqui, praticamente só os restaurantes de cômica ocidental colocam queijo nos pratos. Os chineses comem muita, muita soja, principalmente em forma de tofu.

Essa questão me fez perceber uma jogada de marketing fenomenal. Como a indústria do leite vende um produto que faz mal às pessoas? Pegando no que é valor para as pessoas aqui. Em uma população de baixa estatura e que procura ter pele branca (veja este post), vendem leite como produto que faz crescer e… que embranquece a pele!

Eu vi uns colegas de 18 anos, tomando leite e perguntei: mas não te faz mal?

-Sim, mas é bom pra ficar mais alto.

Outra amiga disse que as grávidas procuram beber leite para que os bebês nasçam com pele alva. Ela compartilhou que sua mãe não bebia leite quando estava grávida dela e por isso a família a culpou por minha amiga não ter nascido branquinha!

Censura?

Minha amiga peruana Kátia está viajando pelo mundo e veio nos visitar em Hong Kong (nossa primeira visita!). Ela pesquisou na nossa guia sobre Hong Kong as coisas que queria visitar aqui. Como boa historiadora que é, entre outros lugares, selecionou um museu chamado 4 de junho. Segundo a descrição da guia, que é de 2015, este museu é o primeiro do mundo dedicado aos protestos pró-democracia que aconteceram em Pequim em 1989. O evento também é conhecido como Protestos da Praça Tiananmen. Foram 7 semanas de ocupação dessa praça em Pequim e centenas ou milhares de civis mortos. Na China, que tem uma internet censurada e controlada, se você busca na internet pelo evento, não aparece nada. Foi literalmente borrado da internet chinesa.

Bom, o museu em Hong Kong traria artefatos, fotos e filmes relatando a ocasião. Eu quis ir com ela. Pra confirmar os horários e endereço da guia, busquei na internet. Não achei página oficial, mas um blog que contava das exposições, horários, preços, etc.

Quando chegamos na rua onde seria, não encontramos o museu. Sabíamos que não era no nível da rua, mas pela foto do googlemaps haveria uma placa com o nome do museu, do lado de fora. Fomos até o final da rua, voltamos, olhamos o nome da rua de novo, nada. O GPS do aplicativo continuava dizendo que o museu estava diante de nós. Eu parei para buscar na internet se havia mudado de endereço ou se estava fechado. A Kátia resolveu se aproximar do edifício onde seria o museu e viu, pela porta de vidro, que havia um diretório com o nome de todos os negócios que havia em cada andar. Lá estava, 5o andar- 4th June Museum. Ela me chamou:

– Clara, é aqui.

Enquanto atravessava, uma segurança ou porteira abriu a porta e Kátia foi dizendo: – Queremos ir ao museu 4 de junho.

Ela respondeu, em um inglês macarrônico:

– Closed (fechado)

– Today (hoje)?
Mas a mulher ficava só balançando a cabeça negativamente e cruzando uma mão sobre a outra, em um gesto que interpretei como “fechado”. Eu resolvei perguntar também, para confirmar e a resposta era a mesma: fechado, fechado.

Diante de nossas caras de perplexas e da nossa resistência em simplesmente aceitar e sair, ela fechou a porta na nossa cara, nos expulsando do prédio (estávamos só com meio corpo pra dentro).

Achamos muito estranho. Será que ela nos censurou e não nos deixou subir? Ou será que o governos chinês fechou o museu (disse no post anterior que a China vem fazendo intervenções aqui). Nesse último caso, porque não tiraram o nome do diretório do edifício? Até agora não entendemos.

Com a expulsão, nem deu para eu pegar a câmera e registrar com foto ou vídeo. Mas a sorte é que a Kátia é uma artista e fez uma história em quadrinhos sobre o acontecimento, que compartilho com vocês.

 censura- Katia

Aliás, ela está viajando pelo mundo por um ano e diariamente coloca um desenho com algum acontecimento do dia. Um diário muito divertido e criativo. Se quiserem acompanhar (é em espanhol, mas os desenhos ajudam a entender), ela posta todo dia na página do Facebook: La isla desconocida

PS: Após escrever este post, meu blog foi bloqueado na China… Uma amiga entrou antes e agora não se pode mais… Achei que por ser em português estava segura…

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