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Censura?

Minha amiga peruana Kátia está viajando pelo mundo e veio nos visitar em Hong Kong (nossa primeira visita!). Ela pesquisou na nossa guia sobre Hong Kong as coisas que queria visitar aqui. Como boa historiadora que é, entre outros lugares, selecionou um museu chamado 4 de junho. Segundo a descrição da guia, que é de 2015, este museu é o primeiro do mundo dedicado aos protestos pró-democracia que aconteceram em Pequim em 1989. O evento também é conhecido como Protestos da Praça Tiananmen. Foram 7 semanas de ocupação dessa praça em Pequim e centenas ou milhares de civis mortos. Na China, que tem uma internet censurada e controlada, se você busca na internet pelo evento, não aparece nada. Foi literalmente borrado da internet chinesa.

Bom, o museu em Hong Kong traria artefatos, fotos e filmes relatando a ocasião. Eu quis ir com ela. Pra confirmar os horários e endereço da guia, busquei na internet. Não achei página oficial, mas um blog que contava das exposições, horários, preços, etc.

Quando chegamos na rua onde seria, não encontramos o museu. Sabíamos que não era no nível da rua, mas pela foto do googlemaps haveria uma placa com o nome do museu, do lado de fora. Fomos até o final da rua, voltamos, olhamos o nome da rua de novo, nada. O GPS do aplicativo continuava dizendo que o museu estava diante de nós. Eu parei para buscar na internet se havia mudado de endereço ou se estava fechado. A Kátia resolveu se aproximar do edifício onde seria o museu e viu, pela porta de vidro, que havia um diretório com o nome de todos os negócios que havia em cada andar. Lá estava, 5o andar- 4th June Museum. Ela me chamou:

– Clara, é aqui.

Enquanto atravessava, uma segurança ou porteira abriu a porta e Kátia foi dizendo: – Queremos ir ao museu 4 de junho.

Ela respondeu, em um inglês macarrônico:

– Closed (fechado)

– Today (hoje)?
Mas a mulher ficava só balançando a cabeça negativamente e cruzando uma mão sobre a outra, em um gesto que interpretei como “fechado”. Eu resolvei perguntar também, para confirmar e a resposta era a mesma: fechado, fechado.

Diante de nossas caras de perplexas e da nossa resistência em simplesmente aceitar e sair, ela fechou a porta na nossa cara, nos expulsando do prédio (estávamos só com meio corpo pra dentro).

Achamos muito estranho. Será que ela nos censurou e não nos deixou subir? Ou será que o governos chinês fechou o museu (disse no post anterior que a China vem fazendo intervenções aqui). Nesse último caso, porque não tiraram o nome do diretório do edifício? Até agora não entendemos.

Com a expulsão, nem deu para eu pegar a câmera e registrar com foto ou vídeo. Mas a sorte é que a Kátia é uma artista e fez uma história em quadrinhos sobre o acontecimento, que compartilho com vocês.

 censura- Katia

Aliás, ela está viajando pelo mundo por um ano e diariamente coloca um desenho com algum acontecimento do dia. Um diário muito divertido e criativo. Se quiserem acompanhar (é em espanhol, mas os desenhos ajudam a entender), ela posta todo dia na página do Facebook: La isla desconocida

PS: Após escrever este post, meu blog foi bloqueado na China… Uma amiga entrou antes e agora não se pode mais… Achei que por ser em português estava segura…

Uma pergunta simples mas cuja resposta é mais complicada. Afinal, Hong Kong está na China? Eu não consigo responder esta pergunta satisfatoriamente… Em teoria sim, mas na prática não.

Para entender, voltemos um pouco no tempo, de forma muito resumida: a China perdeu Duas Guerras do Ópio contra a Grã-Bretanha (a primeira guerra do ópio começou em 1839). Teve que ceder então a ilha de Hong Kong e a península perto dela. Essas ficavam na região de Cantão e tinham importância por seu porto e posição estratégica. A Grã-Bretanha então assumiu o controle de Hong Kong por 155 anos. Em 1 de julho de 1997, Hong Kong foi “devolvido” (os chineses dizem reunificado) à China com algumas condições: nos seguintes 50 anos, até 2047, não haveria mudanças no sistema capitalista. Hong Kong, assim como Macau, virou uma Região Administrativa Especial, sob o lema: um país, dois sistemas. Hong Kong tem um alto grau de autonomia.

Além do sistema econômico ser diferente da China, a moeda é diferente, chineses precisam de visto pra entrar aqui e residentes de Hong Kong para entrar na China, quando saímos de Hong Kong passemos pela imigração e controle de passaporte mesmo quando entrando na China, quem é cidadão aqui tem passaporte de Hong Kong e não da China, há liberdade de imprensa e internet sem bloqueio, ao contrário da China. Hong Kong possui sistema judiciário próprio, as leis continuam baseadas na Lei Inglesa. Na China o idioma oficial é mandarim (mas vários outros coexistem) e em Hong Kong é cantonês e inglês. Tudo isso faz com que eu sinta que não estou na China.

Mapa de Hong Kong e sua localização na China. Fonte: http://vlib.iue.it/history/asia/China/

Mapa de Hong Kong e sua localização na China. Fonte: http://vlib.iue.it/history/asia/China/

A influência britânica se vê até hoje. Não tanto dos britânicos que permaneceram aqui, mas noto que, de maneira geral, os moradores de Hong Kong de etnia chinesa, consideram os chineses mal educados ou menos “civilizados”. Há leis que multam quem cospe no chão, por exemplo, prática comum na China. Se alguém atravessa a rua com sinal de pedestre vermelho, entra no metrô sem esperar os de dentro sair ou algo do gênero, o pessoal diz: esses chineses… Já presenciei uma briga acalorada por uma questão de fila, que terminou com um grito: -volte para China!

Desde a reunificação, muitos chineses estão vindo para Hong Kong e penso que o governo esteja até incentivando.

Por sua história, Hong Kong se considera multicultural, uma ponte entre ocidente e oriente. Seu mote é Asia’s world city, algo como uma cidade mundial na Ásia. Além disso, atrai muitos estrangeiros pois é um dos melhores lugares do mundo para se fazer negócios e os impostos são baixos.

Ainda que tenha havia assinado o acordo que dá autonomia, a China vem tentando fazer algumas interferências, que não são bem vistas. A revolução dos guarda-chuvas, em 2014, foram protestos contra uma tentativa de interferir nas eleições. Ninguém sabe o que vai acontecer em 2047. Será que os moradores de Hong Kong vão aceitar passivamente o domínio chinês e perder a democracia, a liberdade? Será que conseguirão viver sem Google, por exemplo? O tempo dirá. Por enquanto, eu fico aqui tentando resolver se estou na China ou não…

Compartilho com vocês algumas curiosidades que me fazem sorrir em Hong Kong, pela excentridade e diferença com nossa cultura.

Enquanto no Brasil a onda é alisar as madeixas, aqui os salões oferecem permanente. Já vi até oferta de permanente de cílios (seja lá o que isso for: fazê-los ficar mais encurvados?). No Brasil, onde o anelado impera, muita gente estica o cabelo, como se só cabelo liso fosse bonito. Aqui, onde praticamente todos têm cabelo liso, querem ondular as madeixas e precisam fazer permanente. Principalmente entre as mulheres mais idosas, o estilo que impera é cabelo curto e anelado. Até mesmo homens já vi com cabelo frisado! Duas amigas me perguntaram se meu cabelo é natural. Ao responder que sim, elas arregalaram os olhos de admiração e disseram: eu queria que meu cabelo fosse assim! Isso confirma o que dizem: o ser humano nunca está satisfeito com o que tem.

Achei tão fofinha essa senhorinha tirando selfie. E o cabelo com permanente é muito comum aqui.

Achei tão fofinha essa senhorinha tirando selfie. E o cabelo com permanente é muito comum aqui.

Vi uma brincadeira em uma gincana, que só podia ser aqui: passar as bolinhas de gude de um copo para outro, usando os palitinhos. Talvez no Brasil adquira um novo significado, mas aconselho a colocar menos bolinha porque eu tentei e não consegui nem metade das que estão no vídeo.

Uma mistura para chá. Vai um chazinho com… inseto! Nhame nhame…

Vai um chazinho com inseto?

Vai um chazinho com inseto?

 

E a marca desse suco de tomate não soa bem para ouvidos brasileiros né? Virou até nossa brincadeira interna.

Suco Kagome.

Suco Kagome.

Muitas vezes deparei ao andar na rua, com várias coroas de flores na calçada. Como não leio chinês, não sabia o que estava escrito. Na primeira vez que vi pensei que alguém havia morrido. Mas aí eu vi que haviam várias seguidas e seria muita coincidência ou uma tragédia para que vizinhos tivessem perdido entes no mesmo dia. Pensei então que se tratavam de floriculturas ou até de funerárias. Só um tempo depois vim a saber que, na verdade, toda vez que alguém abre um novo negócio ou filial em novo lugar, recebe essas coroas com desejos de sucesso. Essa é apenas uma das tradições/ superstições de quem abre um novo negócio, para que o mesmo prospere.

coroas flores negocios Hong Kong-abordodomundo

Finalmente se encerram as tradições do ano novo chinês! Ufa!

Continuando alguns rituais do Ano Novo Chinês (leia o primeiro post aqui):

Há uma parada aqui em Hong Kong, no primeiro dia do ano novo e no segundo dia há fogos de artificio. Na parada, eles convidam grupos de todo o mundo para desfilar, então cada ano é diferente. Há carros alegóricos, algumas danças e música. Esse ano teve até Guerra nas Estrelas. Mas para meu olhar de brasileira, acostumada aos desfiles de carnaval, a parada pareceu um pouco fraquinha. Fiz uma compilação de alguns momentos no vídeo abaixo.

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É importante nessa época cuidar dos antepassados que já partiram. Por tanto, as famílias queimam dinheiro falso, maquetes de casa e carro, para que a fumaça suba ao céu, alcançando assim os familiares para que não lhes falta dinheiro, habitação e meio de locomoção onde estiverem agora. (eles também fazem isso no dia do aniversario daqueles que já se foram)

Casas, carros e até helicópteros para queimar, ofertando aos antecepassados que já partiram

Casas, carros e até helicópteros para queimar, ofertando aos antecepassados que já partiram

Há uma dança típica, com leões e dragões, cujo significado é colher os verdes (cai qing). A palavra ‘cai’ em chinês tem som parecido às palavras que significam ‘sorte’ (cái )e ‘vegetais’ (cài). Os comerciantes devem deixar um envelope (adivinhem de que cor?) com dinheiro amarrado a alguma fruta, geralmente laranjas. Os leões de aproximam para `comer´ o vegetal e cuspir o envelope. Acredita-se que isso traz prosperidade aos negócios. Eu fiquei impressionada com a dança do leão principalmente. São duas pessoas e precisam ser um pouco malabaristas. Veja o vídeo abaixo até o final, para ver quem conseguiu pegar uma das frutas cuspidas pelo leão.

Muitas das tradições envolvem comida. Há uma comida específica que o chinês deve comer em cada um dos primeiros 7 dias do ano (macarrão, ovo, peixe, etc).

Essa figura é tipo um deus do dinheiro, todo mundo pendura na casa pra trazer riqueza

Essa figura é tipo um deus do dinheiro, todo mundo pendura na casa pra trazer riqueza

enfeites ano novo chines abordodomundo

Nessa época as pessoas se cumprimentam com um gesto específico, como podem ver abaixo, que é um desejo de que o ano traga riqueza.

No 15o dia do ano novo, há o término das celebrações, com o Festival da Lanterna. São lanternas de papel (maioria vermelha, mas nem todas). Dentro delas há charadas que as pessoas devem adivinhar. Antes, quem adivinhasse, levava a lanterna. As lanternas simbolizam deixar seu eu pra trás e adquirir um novo no ano que começa e que por sua vez abandonarão ao final do ano. Pelo que entendi, é como renovação, deixar as coisas para trás, mas saber da efemeridade do eu.

Além das lanternas, é também o dia dos namorados na China. A razão é que, antigamente, as moças “de família” solteiras, não podiam sair sozinhas. Mas nesse dia, elas podiam. Aí aproveitavam para ver os namorados. Além das lanternas, há também mais uma comida específica a se comer nesse dia: Tang yuan.

 IMG_4911 IMG_4904 IMG_4902 IMG_4899 IMG_4898 Lanternas do Ano do Macaco

Durante os primeiros dias do ano novo, o chinês procura ir a uma Árvore dos Desejos. São figueiras, consideradas especiais por ser onde Buda teve sua iluminação. Você escreve seu desejo num papel vermelho, junto com nome e data de nascimento. Amarra em uma corda e no outro extremo amarra uma laranja. Aí você joga na árvore. Se ficar pendurada entre os galhos, seu desejo vai se realizar.

Hoje em dia, para evitar danos às árvores, é proibido jogar os desejos nelas. Deve-se fazer na réplica de plástico, que fica sempre perto de uma árvore do desejo e, aparentemente, detém o mesmo “poder” da original. Veja o vídeo abaixo.

Está sendo um privilegio participar da maior celebração do povo daqui, o Ano Novo Chinês, conhecido também como Festival da Primavera ou Ano Lunar. Isso porque é uma época fascinante, com diversos rituais e cores vibrantes. Todos os povos têm seus ritos de passagem, mas o pessoal aqui tem uma criatividade grande. Para começar, os rituais de passagem do ano duram cerca de um mês! Contando todos as tradições e preparações, a celebração vai desde 1 semana antes do ano novo até o 15o dia após o mesmo.

A data de início de um ano novo não é fixa, como o nosso 1 de janeiro. Varia cada ano e é determinada pela segunda lua cheia após o solstício de inverno, em dezembro. Esse ano coincidiu com o carnaval brasileiro. As principais tradições ocorrem nos três primeiros dias do ano novo, os quais costumam ser feriados nos países com essa tradição. Nas escolas, repartições públicas e outras empresas, a semana inteira é de recesso.

Cada ano chinês é o ano de um animal. São 12 animais diferentes . No horóscopo chinês, o que importa não é o mês, mas o ano que a pessoa nasce. As pessoas adquirem as características do animal do ano em que nascem. Ainda cada ano adquire um dos 5 elementos (fogo, ouro ou metal, madeira, água e terra). Esse ano é o ano do macaco de fogo.

O evento é um dos maiores do mundo. Vários países em que há comunidades chinesas, também celebram. As pessoas costumam viajar para suas casas porque passar a festividade com a família é extremamente importante. Estima-se em mais de 3,5 bilhões de pessoas ao redor do mundo viajando nessa época e isso sempre gera caos no sistema de transporte.

Ainda para dar ideia da magnitude da época, o Spring Festival Eve tv gala, um longo show de tevê, transmitido na véspera do ano novo, tem cerca de 800 milhões de telespectadores, o que o torna o evento mais assistido do mundo.

No geral, os rituais envolvem o desejo de que o próximo ano seja bom, trazendo dinheiro, sorte e o que você desejar. Para que isso ocorra, não depende só do acaso: há várias coisas que os chineses devem fazer ou não podem fazer durante o período da passagem. Seguem alguns (e farei ainda outro post):

Muitos rituais e decoração envolvem o desejo de riqueza

Muitos rituais e decoração envolvem o desejo de riqueza

  • Dois dias antes do ano novo, o chinês organiza e limpa a casa. Aí ferve água e coloca umas ervas para purificar o ambiente e só então pode pendurar a decoração.
  • 1 semana antes do ano novo, pipocam pelas cidades os mercados de flores. Isso porque ter a casa bonita no ano novo dá sorte. Várias plantes simbolizam desejos diferentes. Veja mais no vídeo abaixo. Hoje em dia os mercados têm de tudo, não só flores. Vendem todo tipo de decoração.
Mercado de flores

Mercado de flores

  • Os chineses acreditam que o que fazem no primeiro dia do ano, vai se repetir durante o ano todo. Portanto, evitam discussões e brigas e procuram fazer o que gostam, principalmente estar com a família. Nesse dia é particularmente ruim dizer palavrões. Também não podem dizer “não” e “não pode”. Uma amiga contou que, quando criança, costumava brigar com o irmão. Então, nesse dia, a mãe, para evitar que eles brigassem, mas sem poder dizer “não briguem”, tentava usar o positivo: vocês são boas crianças, vocês se amam, etc…
  • Algumas pessoas também evitam comer carne no primeiro dia do ano novo.
  • Eles também gostam de usar uma roupa nova no primeiro dia do ano, para que possam ter muitas roupas novas durante o ano. A palavra calça em mandarim tem a sonoridade parecida à riqueza. Portanto, usar calça nova é uma maneira de chamar riqueza.

 ano novo chines1ano novo chines- abordodomundo

  • Outras coisas que os chineses não fazem no primeiro dia do ano, para que não tenham que fazer o resto do ano ou porque a sonoridade da palavra lembra alguma coisa que não querem que o ano novo traga: lavar o cabelo, lavar roupa, varrer a casa, não tomam remédio, evitam manipular tesouras ou facas, ter pouco arroz em casa, matar animais…
  • Nessa época o monstro Nian, que vive escondido no resto do ano, sai e ataca as pessoas, preferindo crianças. Mas ele tem medo da cor vermelha e não gosta de ruídos altos. Por isso tudo se enfeita de vermelho e se soltam bombinhas. Vermelho também significa prosperidade e felicidade.
Decoração que faz barulho e é vermelha, para espantar o monstro Nian

Decoração que faz barulho e é vermelha, para espantar o monstro Nian

  • É comum dar moedas para crianças dentro de um envelope vermelho. As crianças devem colocá-las sob o travesseiro. Caso o monstro se acerque durante o sono e tente pegar a criança, a moeda fará barulho, que o espantará.
Envelope para dar dinheiro às crianças

Envelope para dar dinheiro às crianças

  • Muita decoração inclui peixe. Isso porque a pronuncia da palavra peixe parece com a de sobra. Então eles estão como que pedindo que o dinheiro sobre.

 ano novo chines3- abordodomundo ano novo chines4- abordodomundo

  • Outra decoração comum é a flor daffodils. Acho que no Brasil é narciso (mas se alguém souber melhor, por favor comente). É considera muita sorte se ela brota na véspera do ano novo.
  • Eles também penduram dentro ou na porta de casa, algum desejo para o ano novo, escrito em um papel vermelho especial.

ano novo chines7- abordodomundo

  • Além disso, as pessoas compram vários tipos de cata-ventos, em geral vermelhos, para que o ano corra bem. Para isso o cata-vento deve rodar suavemente, sem ficar parando.

catavento ano novo chines- abordodomundo catavento2 ano novo chines- abordodomundo

  • Há muita decoração e presente com o animal do ano que inicia. O ano do seu animal (a cada 12 anos) é considerado um ano difícil, portanto, quando for seu ano, deve-se usar um cinto vermelho durante o Ano Novo, que é para se proteger. Aliás, esse é meu caso, sou “macaco”.
presentes macaco- ano novo chines- abordodomundo

Presentes com o animal do ano que inicia, nesse caso macaco

Mais rituais no próximo post!

Chris, meu esposo, inglês, sempre diz que, para mim, antes de eu ser brasileira sou mineira. Eu respondo que não tenho culpa de ter nascido no melhor estado do Brasil…

Exageros e brincadeiras à parte, o fato é que sou sim orgulhosa da minha origem mineira. Seja por isso, ou pelo fato de que, quando estamos em terra estrangeira ficamos procurando algo familiar, ou por uma combinação das duas coisas, a questão é que acabei encontrando semelhanças, aqui em Hong Kong, com minha querida Minas Gerais.

Vejam só:

1) Minas é conhecida por ter a melhor culinária do Brasil e Hong Kong também tem o status de ser o paraíso dos amantes de comida (como a maioria das comidas não é vegetariana, não sei atestar a veracidade do fato nem aqui nem lá).

2) No meu segundo dia em Hong Kong, entrei em uma padaria e descobri que a mais famosa iguaria mineira chegou aqui: pão de queijo! E ainda por cima escrito em português!

pao de queijo em Hong Kong-abordodmundo

A padaria era no centro e perto de um hotel, então pensei que podia ser coisa turística. E a grafia em português suponho que seja influência de Macau, ex-colônia portuguesa, que fica a uma hora daqui. No entanto, na padaria perto de onde moramos, lugar com poucos estrangeiros, eles também possuem a deliciosa iguaria, mas vejam a grafia! Muito engraçado.

pontikege de queijo em Hong Kong-abordodmundo

E o sabor? Claro que nenhum mineiro acha que pão de queijo fora de Minas Gerais, nem nos estados vizinhos, tem o gosto igual ao nosso. Mas, nesse caso, não tem muito sabor de queijo ou polvilho. Parece mais uma broinha. É meio doce. E eles fazem ainda em versões com sabores diferente: pedaços de chocolate, ervas e gergelim.

E o preço? Mais ou menos uns 2 reais para um pao de queijo pequeno e R$7 para 4 ou 5. (cotação jan/2016)

pontikege-pao de queijo em Hong Kong-abordodmundo

3) A peteca foi inventada em Minas Gerais e chegou em Hong Kong modificada joga-se com os pés! Eu e minha imaginação fértil já inventamos uma história (atenção- isso é totalmente especulação bem humorada). A peteca chegou aqui sem ninguém que soubesse explicar como jogar. Quando alguém disse que era um objeto do Brasil, eles foram logo pensando que, se é do Brasil, deve-se jogar com os pés, como futebol…

4) Hong Kong tem diversas montanhas e altas trilhas. A montanha abaixo é perto da Universidade e a vejo todos os dias.

Essa montanha em Kowloon Tong, Hong Kong é a minha Serra do Curral.

Essa montanha em Kowloon Tong, Hong Kong é a minha Serra do Curral.

Moramos atrás de uma montanha, em um lugar chamado Tai Wo. Subimos nela e deu para ver a China (prédios altos lá no fundo).

Montanha em Tai Wo. Os prédios altos ao fundo ja são na China.

Montanha em Tai Wo. Os prédios altos ao fundo ja são na China.

No entanto, uma grande diferença com Minas é um “apenas um detalhe”: aqui tem mar! Por todos os lados (Hong Kong é uma península e várias ilhas), como podem ver ao final desse vídeo: montanhas e mar.

Agora, olhem este pôr-do-sol, que vejo da janela do escritório, com as montanhas e o mar. Faço questão de vê-lo todo dia que a poluição deixa. Não é lindo?

Por do sol entre montanhas e mar (o mar está entre os prédios, no centro da foto)

Por do sol entre montanhas e mar (o mar está entre os prédios, no centro da foto)

Feliz… 2016?

Já passei Natal e Reveillon fora do Brasil algumas vezes. Esse ano foi especialmente difícil. Primeiro porque no início de dezembro perdemos minha tia-mãe-anja Elvira e foi duro não estar com minha família nesse momento.

Além disso, não senti aqui o espírito natalino ou de ano novo. Eu expliquei no post sobre o natal que aqui não há muita celebração desse dia. Para se ter uma ideia, a universidade estava de recesso por 3 semanas, incluindo 25 e 31 de dezembro, mas muitos dos meus colegas chineses não foram para casa visitar a família, pois preferiram deixar para ir em fevereiro, no ano novo chinês, ainda que serão só 5 dias de recesso.

Em Hong Kong, pela influência ocidental, no dia 31 de dezembro até há um show de fogos de artificio, mas todos falam que não se compara ao do ano novo chinês. De qualquer forma, quis verificar e formamos um grupinho de estrangeiros para celebrar juntos. Nele, estavam 3 iranianos. Na conversa eles disseram que no Irã e países pérsias, o ano novo seria só em março. O calendário persa marca o primeiro equinócio de primavera como o primeiro dia do ano. É o Nowruz. E o início do calendário persa é a Heriga ou Medina, peregrinação do profeta Maomé à Meca, em 621 DC. Ou seja, eles estão agora, até março de 2016, no ano 1394!

Isso quer dizer que passei a virada de ano cercada de chineses e iranianos, povos que têm sua passagem de ano em uma data diferente do dia 31 de dezembro.

Mas a curiosidade não parou por aí.

No dia 1 de janeiro de 2016 (para mim, mas não para os chineses ou persas), encontro no elevador um conhecido da Etiópia. Para puxar conversa que não fosse sobre o tempo, perguntei o que ele tinha feito no Reveillon. Ele disse que nada, que dormiu. Diante da minha surpresa, justificou:

– É que para mim não foi ano novo. Na Etiópia comemoramos a passagem do ano em Setembro (dia 11 ou 12). É o Enkutatash.

Aquele país usa o calendário egípcio, e está, até setembro de 2016, no ano 2008.

Eu sabia que dois terços da população mundial não seguem o cristianismo e que, por conseguinte, nosso calendário gregoriano não é único no mundo. No entanto presenciar isso fora da minha cultura e estranhamente sentir-me em minoria no ambiente em que estava, além de divertido, me deu uma noção da minha ínfima posição nesse mundo. Uma das lições de se morar fora de nossa cultura e ver o mundo com outra lente cultural é exatamente a humildade. A viagem pro outro lado do mundo me deslocou não só no espaço mas também no tempo. Afinal, já que estou aqui, nem sei mais se estou em 2016. De qualquer forma, seja qual for a data da sua virada, se você entrou ou vai entrar em 2016, 1395, 2009 ou ano do macaco: que tenha um excelente Ano Novo!

E independentemente de como contamos nossos dias e anos, que lembremos de fazer o melhor cada dia, aproveitando o tempo que temos com as pessoas que amamos.

Até que gostei dos fogos em Hong Kong. Muito bonito!

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