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Não dá para falar da cultura chinesa sem falar de superstições. Porque elas fazem parte da cultura chinesa de forma tão arraigada, que afetam a vida mesmo de quem não acredita nelas. Compartilho algumas tradições e curiosidades que, mesmo que não sejam seguidas por todos os chineses, são interessantes para refletir sobre o modo de ver a vida conectada com o transcendental. Nesse post falo do horóscopo chinês e do Feng Shui e tenho que fazer ainda um segundo post sobre o tema.

O horóscopo chinês é diferente do que conhecemos, pois os signos são 12 e vão por ano e não por mês. Os signos são representados por animais (Rato, Boi, Tigre, Coelho, Dragão, Serpente, Cavalo, Carneiro, Macaco, Galo, Cão e Porco). Há também 5 elementos (madeira, fogo, terra, metal e água) que vão se revezando cada vez que um animal repete. Por exemplo, macaco de madeira, 12 anos depois é macaco de fogo, etc.

Um fato interessante é que se alguém pergunta seu signo pode ser que esteja querendo saber sua idade. Como os signos só se repetem a cada 12 anos, se você fala, por exemplo que é macaco, no ano do macaco, eles calculam que você pode ter então 12, 24, 36, 48 ou 60 anos. Assim, fica fácil adivinhar a idade.

O mais interessante é que, devido às personalidades atribuídas a cada signo, eles preferem alguns e desconfiam de outros. E isso tem consequências práticas.

O signo de dragão é de longe o preferido e, dizem algumas fontes, que nos anos desse signo aumenta a taxa de natalidade na China, enquanto que nos anos do tigre, que são crianças consideradas difíceis, a taxa cai.

O ano de 1966 registrou menos nascimentos em Hong Kong do que os outros anos na década de 60, porque era um signo considerado particularmente ruim, gerador de crianças incontroláveis: o cavalo de fogo.

Algumas grávidas optam por cesariana para garantir que o bebê nasça no signo que preferem. Em janeiro de 2013 o número de cesarianas na China aumentou, porque era o último mês para que os bebês nascessem sob o sino do dragão.

Além disso, alguns eventos importantes na vida dos chineses são marcados de acordo com o horóscopo. Um colega que estava terminando o doutorado quando eu entrei, informou que ia se casar uma semana antes do prazo final de entrega da tese. Eu perguntei: porque você não marcou o casamento para a semana seguinte, quando já teria entregue a tese? Pareceu-me masoquismo fazer coincidir dois eventos que consumem muito tempo e energia emocional. Ele respondeu que tinham consultado um especialista e que o horóscopo revelou que aquela era a semana mais propícia para que o casamento desse certo. Vale ressaltar que ele é um acadêmico que está fazendo pós-doutorado.

Os meses de agosto e setembro são considerados de má sorte em Hong Kong. Segunda a tradição, os portões do inferno são abertos nesses meses e os chineses cuidam para não ofender os espíritos que perambulam pela terra. Assim, eles evitam se casar e mudar de trabalho e casa nessa época.

Cartaz na universidade: "se você não fechar a porta, a má sorte vai entrar". Depois de vários cartazes pedindo para o povo fechar a porta de um laboratório, resolveram apelar para a superstição para ver se funciona.

Cartaz na universidade: “se você não fechar a porta, a má sorte vai entrar”. Depois de vários cartazes pedindo para as pessoas fecharem a porta de um laboratório, resolveram apelar para a superstição do povo para ver se funciona.

Já o Feng Shui é uma técnica de harmonia das construções, que alcançou o mundo inteiro. A ideia é que o ser humano deve viver em harmonia com a natureza. Há uma série de regras na hora de construir edifícios e de como arrumar o interior de imóveis. O ideal é construir perto de rio e com o fundo protegido por montanha.

Consulta-se o Feng Sui para decidir o lugar onde se abrirá um negócio ou se construirá um templo ou casa. Inclusive, o compasso foi inventado na China não para navegar, mas para ser usado no Feng Shui.

Além de onde construir, a técnica determina o material principal da construção, sua forma, esquema de cores, o posicionamento de portas, janelas e móveis, e até onde flores ou souvenires devem ser colocados.

Como Hong Kong não tem tanta alternativa de lugares para construir, devido à sua geografia montanhosa, as regras do Feng Shui se adaptaram um pouco. O posicionamento de espelhos hexagonais ajudaria a proteger contra o mau olhado e, na falta, de rio, espelhos d’água são usados para atrair prosperidade. Uma breve caminhada na área central de Hong Kong, que reúne sede de vários bancos, permite perceber a influência do Feng Shui: abundam espelhos e fontes d’água.

Estima-se que Hong Kong tenha mais de 10 mil especialistas em Feng Shui (porque na China pós revolução cultural, essa técnica foi proibido, assim como quase tudo considerado supersticioso, enquanto em Hong Kong pode-se praticá-la legalmente). Estes são sempre consultados, mesmo cobrando caro.

Há uma história da loja britânica Marks & Spencer que, quando abriu em Hong Kong, não levou em consideração os princípios do Feng Shui. O negócio não estava indo bem, então os donos resolveram chamar um especialista, que recomendou colocar algumas luzes em lugares estratégicos, um tanque com peixes e até tartarugas de madeira (!). Só então o negócio prosperou…

Aguardem a sequência desse post!

Em Hong Kong há o fenômeno da empregada doméstica estrangeira. Como acontece no Brasil, muitas famílias contratam uma mulher para fazer o serviço doméstico, cuidar dos filhos e/ou pais idosos, etc. Pelas especificidades do trabalho, como morar com a família e o baixo salário, as pessoas de Hong Kong não gostam de fazê-lo. Portanto, as famílias costumam contratar as empregadas de países vizinhos. A maioria vem da Filipina, pois elas falam inglês bem e podem se comunicar com a família (geralmente as famílias que podem arcar com esse gasto falam algum nível de inglês).

Essas mulheres vêm pra Hong Kong com visto específico para trabalhar como domésticas e não podem trabalhar em outra coisa. Penso que é para evitar que elas decidam trocar por outro tipo de trabalho. A família contratante deve fornecer moradia, alimentação e passagem para seu país 1 ou 2 vezes por ano. Com o problema da moradia aqui, os espaços são pequenos e os quartos dedicados às empregadas domésticas são minúsculos e sem janela. Isso quando há. Ouvi histórias de algumas que precisam dormir no quarto das crianças, no chão ou até mesmo no corredor da casa. Além disso, há relatos que algumas são tratadas muito mal pelas famílias.

No início achei que eram mulheres solteiras, mas geralmente elas têm família. É pensando justamente em dar uma vida melhor ao filhos é que elas vêm pra cá. Algumas casam, têm filhos e os deixam pequenos, visitando-os apenas uma vez por ano, nas férias. Alguns maridos arrumam outras mulheres lá, enquanto elas vivem uma vida de reclusão em Hong Kong, sem espaço para ter intimidade.

Elas tendem a ser vistas como vítimas, por serem exploradas por pouco dinheiro, mas no seu país de origem são vistas como heroínas, por se sacrificarem para mandar dinheiro para casa. Como elas não têm gastos de moradia e alimentação, enviam praticamente todo o salário para seu país. Em termos de Hong Kong, o salário é pouco, pois ganham o salário mínimo. Mas nas Filipinas, esse valor é considerado alto, por causa da conversão e da diferença do custo de vida entre os países.

Geralmente o domingo é dia de folga das domésticas. Como elas não têm para aonde ir, elas vão para a região central da cidade e tomam conta de algumas ruas que são fechadas para o trânsito no domingo, e ocupam esse espaço. Além disso, fica perto da embaixada das Filipinas, que abre no domingo para atendê-las.

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Filipinas nas ruas de Hong Kong em um domingo

O curioso é que elas sentam no chão em grupos, divididos por caixas de papelão, que delimitam o espaço como se fossem suas casas. Elas ficam na rua, sob sol escaldante, frio ou chuva e fazem diversas atividades como se estivessem em casa: falam com a família por Skype, jogam cartas, se maquiam, penteiam e fazem a unha umas das outras, vendem coisas que trouxeram de seu país, algumas cantam e há vários grupos que ficam ensaiando coreografias.

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Filipinas sentadas no chão em Hong Kong, com grupos separados por papelão.

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Filipinas maquiando umas às outras em plena rua

Passeando por essa região num domingo, presenciei um evento singular: um palco na rua, em que acontecia um concurso de Miss Filipinas. As candidatas, vestidas em gala, eram entrevistadas numa mistura de inglês e tagalog (o idioma filipino) e desfilavam. Minha mente feminista classificava concursos de misses como algo de exploração e objetificação da mulher, etc. No entanto, pesquisando sobre o evento, tive uma lição de como tudo é relativo. O concurso existe nesse caso para resgatar a autoestima dessas mulheres que são às vezes tratadas como seres humanos inferiores pelas famílias contratantes.

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Concurso de Miss Filipinas em Hong Kong

Achei que não podia ver nada mais extraordinário do que isso, mas em outra vez que fui ao local em um domingo, vi um concurso de casal lésbico formado por domésticas filipinas. Eu já tinha lido que era comum que algumas tivessem namoradas, mesmo não sendo necessariamente homossexuais. Isso porque, como não conseguem ter intimidade e com a falta de homens conterrâneos em Hong Kong, elas arranjam parceiras que estão ao alcance para suprir a carência afetiva. Essa prática, mesmo quando não há a orientação homossexual, me fez lembrar o comportamento dos marinheiros, que testemunhei de perto na minha temporada em alto mar. Só que nos navios, faltam mulheres e sobram homens. Curiosamente, muitos são filipinos…

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celebração da igualdade de gênero em com filipinas em Hong Kong

Com o risco de cair no estereótipo, posso dizer que a maioria dos chineses tem um tipo físico parecido: cabelo liso, preto, olhos puxadinhos, estatura mediana…. Talvez seja porque, como brasileira, eu esteja acostumada à mistura de etnias, a ver na mesma paisagem diversos tons de pele, várias cores e tipos de cabelo e olhos. Mesmo levando isso em conta, posso generalizar sem medo: as pessoas aqui são bem mais magras que as ocidentais! Não sei se é o estilo de vida ou é mesmo genética.

Eu sempre sou tamanho pequeno no Brasil. Nos Estados Unidos e Inglaterra sou inclusive petit, isso é: menor que o número 1 dos tamanhos normais. Há alguns anos fui experimentar uma calça nos EUA e todas me pareceram grandes. Peguei a menor que achei, a número 1, experimentei e ficou grande. Surpresa e, até sem graça, perguntei à vendedora se havia tamanho menor que o 1. Ela disse: você deve procurar a seção de petits, no andar de cima. Eu nem sabia o que era isso, e ela disse: é para mulheres pequenas e magras. Diante do meu espanto, ela explicou: por causa das asiáticas.

Só agora entendo exatamente o significado dessas palavras. As roupas em Hong Kong são bem menores do que as que estamos acostumadas. Eu fui experimentar um top de ginástica aqui e perguntei à vendedora qual seria o meu tamanho. Ela disse que achava que era extra grande. Eu ri e pensei: essa mulher está exagerando. Peguei um tamanho grande, experimentei e… ficou pequeno! Realmente eu sou extra-grande aqui! Por isso, ao viajar de volta ao Brasil, cujos voos geralmente duram 24 horas, poderei novamente voltar a ser tamanho pequeno! Ufa!

Brincadeiras à parte, às vezes fica difícil comprar roupa aqui. Ser muito magra aqui significa também ser sem muita curva, peito ou bunda. Por isso, além de nem todas as roupas ficarem bem no nosso tipo físico, pois são feitas para corpo com poucas curvas, é difícil achar sutiã sem enchimento. Há diversas grossuras de enchimento e alguns parecem que têm até um travesseiro dentro.

Calçado também é complicado. Com os pezinhos de anjo das mulheres daqui, tudo que gosto não tem meu número, porque aqui só vai até um número que fica pequeno no meu pé…

No entanto, várias lojas levam em conta que estrangeiros também precisam se vestir e aí surgem os tamanhos super extra mega grandes. Em inglês a sigla é XL (extra large). É comum ver até 5X: XXXXXL (vejam foto abaixo). O engraçado é que ao ver este tamanho, imagino algo enorme, mas quando pego para ver, não é um tamanho tão exagerado assim…

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Loja com roupas do tamanho extra pequeno (small) para o extra extra extra extra extra grande (large)

Depois de compartilhar o principal desafio de viver em Hong Kong, a moradia, vou falar sobre uma grande facilidade: a mobilidade.

Em vários lugares, principalmente no centro, há plataformas elevadas interligando edifícios. É possível andar vários quarteirões “no ar”, atravessar avenidas e ruas sem descer ao nível do chão. Penso que isso foi feito pensando mais nos carros, para evitar semáforos e fazer o trânsito fluir, mas é bom para os pedestres também. Essas plataformas são cobertas e ajudam a proteger do sol e chuva, além de ser mais rápido do que ficar esperando sinal de pedestre abrir.

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Acho divertido é que aqui a escada rolante é transporte público. Como o relevo é montanhoso, várias subidas possuem escadas rolante públicas. Você está andando e, de repente, no meio do passeio aparece uma escada rolante que ajuda na subida. Inclusive, Hong Kong se gaba de possuir a mais longa escada rolante ao ar livre do mundo. Na verdade, não é uma escada continua. São vários trechos de escada, cobrindo uma distância de 800 metros, que sobem uma altura de 135 metros.

escada rolante Hong Kong-abordodomundo

Agora, o metrô daqui é um capítulo à parte: maravilhoso. Conhecido como MTR, pela sigla em inglês de Mass Transit Railway (transporte de massa sobre trilhos). O MTR possui ar condicionado forte, o que é um alívio no calorão daqui.

A frequência dos trens é impressionante. Varia, claro, de acordo com horário e linha, mas na que costumo pegar, eles passam de um em um minuto. Apesar da frequência, quase sempre vem cheio de gente.

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Dentro do MTR em Hong Kong

Quase todas as estações são dentro de shoppings. Esses shoppings variam de tamanho de acordo com a localidade da estação, mas costumam ter supermercado, padaria, etc. É prático, pois você chega na sua estação e pode comprar o que precisar antes de acabar de chegar em casa.

Algo que agiliza a mobilidade e que eu nunca vi em outro lugar (e olha que já rodei) é que nas estações em que passam mais de uma linha, quem quer trocar de linha não precisa trocar de plataforma (cross platform interchange). Difícil de explicar, mas vou tentar. Geralmente, o que acontece nos metrôs é que em uma plataforma, passa uma linha, digamos, vermelha, de um lado indo na direção A para B e, do outro, de B para A. Quem precisa trocar de linha, chega na plataforma e tem que procurar a outra plataforma, na qual passa a linha amarela. Gastam-se alguns minutos nessa troca, pois geralmente há que mudar de linha. No entanto, na maioria das estações de baldeação em Hong Kong, a mesma plataforma tem, de um lado, a linha vermelha indo de A para B e, do outro, a linha amarela indo de C para D. Na outra plataforma da estação, a linha vermelha indo de B para A e a amarela de D para C. Quem precisa trocar de linha, basta então dar alguns passos e cruzar a plataforma. É super prático e economiza tempo! Há até um sistema dentro dos trens que indica em qual estação é melhor descer, de acordo com a direção que se vai pegar da outra linha.

O preço da viagem no MTR depende da distância em que se anda. Sempre acho isso mais justo: pagar pelo tanto que se anda. Ao entrar, você passa o cartão e ao sair, passa o mesmo cartão e o sistema calcula a distância e cobra de acordo. Esse cartão é o Octopus. É um cartão pessoal, no qual você coloca o quanto de crédito quiser (há vários lugares para recarregar, em um processo rápido e simples) e ele vai debitando os valores usados. O melhor: o Octopus não é só para o transporte urbano. Pode-se usar em milhares de estabelecimentos comerciais espalhados pela cidade. De supermercados a restaurantes, de máquinas de conveniência a carrinhos de sorvete, o Octopus é amplamente utilizado. É prático pois não precisa de troco e evita ter que ficar guardando moeda. É só tocar em uma maquininha, nem é preciso tirá-lo da bolsa. Agiliza qualquer fila. Além disso, é possível usá-lo para controle de acesso a edifícios, para pagar contas online. Pode-se ainda personalizar o cartão, como foto e fica garantido em caso de perda. Para uso temporário, para quem vem como turista, por exemplo, também vale a pena. Paga-se um depósito, que é devolvido quando o cartão é retornado.

Com tudo isso, carro é totalmente dispensável e quase não pego ônibus. Eu adoro essa agilidade e sustentabilidade! Com tanta frequência e eficiência, difícil é culpar o trânsito por algum atraso…

Uma das grandes questões a ser considerada para quem quer morar em Hong Kong é a moradia. Quem já viu fotos de Hong Kong pode ter a imagem de uma cidade dominada por prédios altos. De fato, Hong Kong não possui os maiores arranha-céus, mas é a cidade com mais arranha-céus do mundo (cerca de 1230). O maior edifício possui 118 andares, sendo o sexto do mundo em altura.

E não são altos só prédios comerciais. Os prédios residenciais mais antigos costumam ter pelo menos 8 andares, chegando a 20. Já os mais modernos têm mais de 50 andares. Temos amigos que moram no andar 67, em um prédio com 70 andares. O elevador (foto abaixo) é tão rápido que dá pressão no ouvido.

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No elevador de um prédio de 70 andares. Ou quase. Na verdade, reparem que não tem todos os andares, mas essa estória fica pra outro post.

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A vista do 67o andar

Essa altura toda não é mania de grandeza. É pura necessidade. Hong Kong não tem espaço. Com pouco mais de 1000 km2 e cerca de 7 milhões de habitantes, a densidade populacional é 6500 pessoas por km2. Como comparação, São Paulo tem 7.700, um pouco mais densa. Só que 60% do território de Hong Kong são natureza (montanhas e parques), onde não é possível construir. Na imagem abaixo, as partes em amarelo são o espaço que sobra para morar.

Essa falta de espaço, claro, faz com os preços de aluguel e compra sejam absurdamente altos até para espaços ridiculamente pequenos. Isso puxa o custo de vida de Hong Kong para o mais alto do mundo, pois na minha opinião comida e outros itens não são tão caros.

Claro que o preço varia com a região e o tamanho, então vou falar em termos gerais. O preço médio de aluguel de um apartamento de 3 quartos é de 18 mil reais por mês (HKD 44000,00). Na prática, mesmo um apartamento menor, de 1 ou 2 quartos, em um lugar mais central, não fica por menos da metade disso.

Na ilha de Hong Kong, que é o coração da cidade, o aluguel costuma ser caro, mesmo em partes em que o metrô não chega (geralmente perto de praias). Nas outras ilhas mais afastadas, o aluguel é mais barato, mas a pessoa fica dependendo de ferry para se deslocar. Além de gastar muito tempo e pagar mais no deslocamento, os horários dos ferries são espaçados e limitados.

Uma maneira de economizar no preço do aluguel é morar em um lugar bem pequeno. Muitos apartamentos têm só um cômodo que é sala e quarto, mais o banheiro. Então muita gente mora sem ter cozinha em casa. Acabam comendo fora sempre e por isso Hong Kong é apinhado de restaurantes e comida de rua, as 24 horas do dia.

Mesmo apartamentos com mais cômodos, muitas vezes possuem quartos em que não cabe nem o armário, praticamente só a cama. E já vi banheiro daqueles que, literalmente, tem que tomar banho em cima do vaso. Chega a ser claustrofóbico.

Como a necessidade faz a força, aflora a criatividade do pessoal aqui em aproveitar cada centímetro quadrado de espaço. Há muitos móveis com duplas funções tipo sofá-cama e mesa com gavetas.

Vista de Hong Kong, com seus arranha-céus, desde o Victoria Peak

Vista de Hong Kong, com seus arranha-céus, montanhas e o mar, desde o Victoria Peak

Além do aluguel em si, claro que há as outras despesas. No processo de aluguel de um imóvel, geralmente há que deixar 2 meses de aluguel como caução, como acontece no Brasil. Mas aqui, no ato de assinatura do contrato, o inquilino paga para a imobiliária metade do aluguel e o proprietário a outra metade. Ou seja, a imobiliária, recebe um mês de aluguel e inquilinos e proprietários não têm este valor reembolsado.

As contas de água, luz e gás não chegam mensalmente. Geralmente a cada dois meses mas nem sempre. Não há regularidade. A boa notícia é que a água é subvencionada e praticamente grátis. Em 10 meses, chegaram só 3 contas que totalizam HKD187, cerca de R$79! Mais ou menos 8 reais por mês…

Para compensar, a eletricidade acaba ficando mais cara no verão por conta do ar-condicionado, que é indispensável nessa época, quando o termômetro fica acima dos 32O e a sensação térmica, por conta da umidade, é de cerca de 44o.

Por tudo isso, a questão da moradia se converte em um dos problemas sociais daqui. O governo oferece residências estatais para quem ganha pouco. São 2 milhões de pessoas (30% da população morando nesses apartamentos).

Só que há problemas, pois às vezes muita gente divide apartamento minúsculo, mesmo não sendo família, tendo que compartilhar áreas comuns. Muita gente morando junta em lugar pequeno, restringe a privacidade. É uma intimidade forçada. Se por um lado há fila de espera para estas residências, há outras pessoas que preferem privacidade maior e optam por morar na rua. Isso gera um fenômeno diferente do Brasil: parte da população de rua são trabalhadores com emprego formal, mas que não ganham o suficiente para pagar a moradia. Alguns optam por dormir em barracas ou colchões em passagens subterrâneas, mas, com o calor, muita gente acaba passando a noite sob o ar condicionado dos McDonalds 24 horas, que tem muito por aqui. É super comum, à noite, ver gente dormindo escorada nas mesas desse fast-food. Um grupo de mestrado da minha escola fez um documentário sobre moradores de rua. Gentilmente, me cederam para compartilhar com vocês. É um vídeo de 13 minutos, que está em mandarim, com legenda em inglês (não português, desculpem…)

Afinal de contas, o que eu estou fazendo em Hong Kong?

Eu vim fazer doutorado. Tudo começou quando minha amiga Christine, que está fazendo doutorado em Singapura, viu uma palestra de um professor de Hong Kong, que falou sobre minha escola e ela achou a minha cara. A School of Creative Media (escola de mídia criativa), na City University of Hong Kong, diz ser a única no mundo que combina mídia e arte. Entrei no site, vi os recursos e apaixonei-me. Pesquisando sobre doutorado, vi que havia a possibilidade da bolsa do governo, que se chama Hong Kong PhD Fellowship Scheme. É voltada para atrair estudantes internacionais, interessados em cursar o doutorado em 8 universidades daqui. Dizem que essa é a bolsa que melhor paga no mundo. Pode ser, mas com o custo de vida aqui sendo literalmente o mais caro do mundo (veja notícia em inglês aqui  ou notinha em português aqui), a bolsa mal é suficiente pra cobrir os gastos.

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Então me preparei por um ano, fiz um projeto para estudar o fenômeno de selfies e participei da seleção. Com direito a entrevista telefônica de madrugada, a universidade me garantiu a vaga. Quando saiu o resultado da bolsa do governo, e eu fui selecionada, a universidade me ofereceu uma bolsa própria, com moradia grátis por um ano e isenção das mensalidades.

A bolsa do governo, além do pagamento mensal, inclui uma verba para participar de conferências internacionais e ainda aumenta um pouco o valor se eu passar um semestre no exterior. Não à toa, é bastante concorrida. Quando tentei, em 2014, foram mais de 3,600 candidatos do mundo todo, para cerca de 200 vagas. Enfim, com essas duas bolsas, não tinha como eu não vir. Para saber mais sobre a bolsa do governo, clique aqui)

Cerimônia de recebimento da bolsa Hong Kong Fellowship Scheme

Cerimônia de recebimento da bolsa Hong Kong Fellowship Scheme

O sistema educativo de Hong Kong é baseado no modelo britânico. O nível superior aqui é todo em inglês (aulas, trabalhos, comunicação interna) então não precisarei escrever uma tese em cantonês ou mandarim. Ufa!

A City University of Hong Kong, ou simplesmente, CityU, é uma universidade jovem e ano passado foi eleita a 57a melhor universidade do mundo, de acordo com o QS World University Rankings. Além disso, é a 7a melhor universidade da Ásia (QS University Rankings: Asia) e a 4a do mundo entre as 50 que têm menos de 50 anos (world’s top 50 universities under 50).

Após quase um ano aqui, posso destacar algumas coisas que mais me chamam a atenção, talvez pela diferença com o Brasil.

A CityU oferece uma quantidade enorme de cursos e atividades extraclasses, gratuitos ou praticamente gratuitos. Eles têm uma preocupação muito grande com o bem estar dos alunos. Acho que é porque os chineses são meio bitolados com estudo e competitivos. Se deixar, eles ficam só estudando e não fazem outra coisa. Qualquer dia da semana, até no final de semana, e qualquer horário, inclusive madrugada, tem muita estudando na biblioteca ou outros cantos. Então os cursos vão desde crescimento pessoal (como liderança), até hobbies (ex: massagem, pintura), passando por orientação para o mercado (ex: como fazer currículo, passar por entrevista). Além disso, há diversos cursos de educação física e os alunos de graduação ainda ganham 1 crédito por semestre para participar. Além dos esportes tradicionais como natação, volêi e tênis de mesa, tem também: dança, yoga, pilates (já fiz nos dois semestres que estou aqui), arco e flecha, golf, esgrima e escalada.

Como se fosse pouco, eles organizam passeios turísticos e culturais para quem quiser (inscrição por ordem de chegada) e cobrem as entradas e 60% do transporte e alimentação!

Eles investem pesado na cultura de internacionalização e possuem centenas de programas de intercâmbio com diversos países (Brasil ainda não). Os programas são de semestre no exterior, voluntário internacional e estágio no exterior. Há também bastante estudantes internacionais aqui. Por isso, há um projeto com alunos de graduação, para aulas básicas de cantonês para estrangeiros. Lógico que eu participei. Além de ajudar com vocabulário básico, ainda ganhei umas amigas fofinhas que me ajudam por telefone caso necessite algo urgente e não consiga me comunicar. A universidade separa verba para estes alunos e pro curso. Na última aula, deu dinheiro para que nós, os aprendizes, fôssemos à praça de alimentação e comprássemos em cantonês a comida.

aula de cantonês

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Confraternização da aula de cantonês

Confraternização da aula de cantonês

A CityU tem uma residência universitária bastante grande, com capacidade para 3.700 alunos. Um prédio é só pra alunos de graduação. Foi onde eu tive o quarto este ano. Os quartos são pequenos, assim como as moradias em geral por aqui. Confesso que não é muito confortável, mas o aluguel é barato. Hong Kong tem um sério problema com preço de moradia e ninguém pagaria o mesmo preço da residência em outro lugar, nem dividindo apartamento. Essa é a grande vantagem, além de fazer amizades, ficar perto da universidade e participar dos eventos semanais. Com isso, sempre tem mais alunos querendo morar lá do que vagas, então eles fazem sorteio.

A biblioteca merece um detalhamento. Adoro! Eu fico impressionada e procuro aproveitar ao máximo os muitos recursos. O acervo é bem completo, até agora tinha todos os livros que precisei. Mas, caso necessite de algum livro que só tenha em outra biblioteca daqui, posso pegar emprestado por meio das parcerias da biblioteca.

O espaço da biblioteca em si é grande, bonito e há vários cantinhos para diversos fins. Tem até duas impressoras 3D para nosso uso. Os recursos são modernos e ela promove atividades como cursos, oficinas e palestras. Já fui a treinamentos diversos e palestras sobre publicação acadêmica. Além disso, vive promovendo concursos que desenvolvem habilidades nos alunos, com prêmio e tudo. Eu tirei primeiro lugar em um concurso de histórias de viagem e terei a minha publicada em um livro!

Agora, o que mais uso é a coleção de mídia. Super completa. Possui vários filmes clássicos que não consegui achar no Brasil, além de documentários e animações mais raros. O melhor: se não tem algum vídeo ou filme que preciso, posso solicitar e eles adquirem. Tem até várias séries de tv completas! Pela biblioteca ainda, temos acesso gratuito a recursos que seriam pagos, como alguns jornais acadêmicos e um software que administra as referências facilmente (eu acho essa parte das referências chata e trabalhosa e o software veio como um bálsamo para mim, que agiliza e automatiza o processo).

Por fim, nós, pós-graduandos, temos acesso a diferentes laboratórios com computadores e softwares modernos. Para minha mesa de trabalho, pude escolher entre um mac e pc, tenho acesso a internet muito boa e espaço para guardar várias coisas (espaço é um problema sério aqui). E meu escritório, que compartilho com outros alunos e professores, tem uma linda vista!

Se faltou algum detalhe que você gostaria de saber sobre a vida aqui, não deixe de me escrever!

minha mesa de trabalho

Com vocês, mais algumas coisinhas particulares de Hong Kong, daquelas que nos deixam um ponto de exclamação.

Já vi várias pessoas saindo com pijama. Geralmente é pijama de flanela e estampa de bichinhos.

Família unida pelo pijama

Família unida pelo pijama

pijama na rua em Hong Kong- abordodomundo

Hong Kong é região suscetível a tempestades e tufões. Há um observatório do clima, que solta uns alertas de vento forte, furacão e tempestade. Tem um sistema de números e cores de acordo com a severidade. Eu baixei o aplicativo e tive que desativar as notificações porque todo dia tinha um alerta, de vento ou chuva. As programações oficiais costumam ter dias e horários alternativos caso haja alerta vermelho de tufão ou furacão. É engraçado pois você recebe um email com um dia e horário e um plano B caso seja preciso cancelar por causa do clima. Abaixo o anexo que veio no email sobre a matrícula (em inglês), só com os dias e horários alternativos.

Anexo com dias e horários alternativos de matrícula caso no dia programado haja algum alerta vermelho.

Anexo com dias e horários alternativos de matrícula caso no dia programado haja algum alerta vermelho.

Aqui é cheio daquelas máquinas em que se coloca moeda e cai uma bala ou brinquedinho. Mas alguns dos brinquedinhos são demasiado exóticos para meu gosto.

Este é de gatos fantasmas.

Este é de gatos fantasmas.

Diversos donos de comércio (restaurantes, lojas, imobiliárias, qualquer negócio) possuem altares no chão, ao lado da porta, com imagem de alguma entidade. Em busca de agradá-la para que o negócio prospere, eles colocam oferendas de comida e incenso. Sempre me pergunto quem afinal come as oferendas.

altar entidade comercio Hong Kong abordodomundo

Muitas pessoas levam o cachorro para passear… em carrinhos de bebê!

cachorros carrinho bebe Hong Kong abordodomundo

cachorros carrinho bebe Hong Kong abordodomundo

Essa é super fashion, carrinho rosa e tudo combinando

Essa é super fashion, carrinho rosa e tudo combinando

 

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