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Continuando os posts sobre comida em Hong Kong, algumas curiosidades relacionadas a restaurantes. Mas, antes, uma ressalva: em Hong Kong há diversos restaurantes internacionais, cadeias estrangeiras que são iguais no mundo todo. As pessoas se referem a eles como restaurantes ocidentais. As curiosidades aqui mencionadas se referem aos restaurantes tradicionais, ou típicos, de comida local e frequentados principalmente pelo pessoal local.

Vocês sabem que aqui se come com palitinhos, ao invés de garfo e faca. Todos usam os palitinhos com a mão direita, mesmo canhotos. Talvez seja porque, pela falta de espaço típica daqui, alguns restaurantes possuem poucas mesas. Aí as pessoas compartilham mesa com desconhecidos e sentam bem pertinho. Se todos usarem a mesma mão para comer, evitam ficar esbarrando a mão uns nos outros. Aliás essa questão de restaurante apertadinho gerou uma história engraçada. No nosso segundo dia aqui, fomos a um desses locais. Na nossa mesa havia mais 6 pessoas. Quando a comida chegou, sem cerimônia ficaram observando o Chris, para ver se ele conseguia comer de palitinhos. Todos ficaram de olho nas mãos dele. Quando ele conseguiu levar a comida à boca sem cair, ouviu-se um rumor de admiração: ohhhh. Nesse episódio, tanta coisa resumida daqui: falta de intimidade, o modo como encaram sem cerimônia e como eles conseguem fazer uma onomatopeias em uníssono, parecendo que ensaiaram a surpresa: ohhh, ahhhh.

Voltando aos palitinhos, a comida então é preparada em pedaços do tamanho da mordida. Não é necessário faca, pois não há que partir nada. Há uma colherzinha de louça que serve de apoio. Alguns restaurantes, pensando nos estrangeiros, até oferecem garfo, mas não faca. Come-se em tigelinhas, o que facilita “empurrar a comida”, papel que a faca também faz.

Antes de vir, li sobre duas tradições. Uma vi que é verdade: ninguém coloca os palitinhos na vertical na tigela de arroz. Isso lembra as tigelas de incenso usada nos rituais para os mortos. Então fica associado à morte, o que deve-se evitar a todo custo.

Não coloque o palitinho na vertical em uma tigela de arroz. Fonte: Pinterest

Não coloque o palitinho na vertical em uma tigela de arroz. Fonte: Pinterest

No entanto, a tradição que diz que deve-se deixar um pouco de comida no prato, para mostrar que está satisfeito, não se mostrou realidade aqui. Até conversei com alguns locais sobre isso, eles dizem que já escutaram essa história, mas que não seguem…

Os restaurantes aqui não costumam ter guardanapo. É comum ver as pessoas carregarem lencinhos de papel e usarem como guardanapo…

Quando trazem a comida, você come na tigela em que veio a comida. Se há mais pessoas, a cultura é pedirem mais de um prato e compartilharem todos. Nesse caso, usam uma cumbuquinha e um pratinho pequeno, tipo pires, para auxiliar. Ou seja, todo mundo enfia os palitinhos na comida de todo mundo, pega seu pedaço e leva ao pires de apoio.

Muitas vezes, fazemos o pedido e eles trazem a conta antes de pedir, junto ou até antes da comida. Não é que querem nos expulsar. É só para adiantar. Se quiser pedir mais coisas depois, sem problemas. Eles trazem outra conta. Aí na hora de pagar, devemos perguntar se paga à mesa ou no caixa. Há os dois tipos, mas tenho visto mais o de pagar no caixa. Se for no caixa, levamos essa conta e acertamos lá.

Cuidado ao pedir água em um restaurante local: eles provavelmente vão trazer um copo de água fervida. É que a medicina chinesa não recomenda misturar coisas fria e quentes. Então, como a comida é quente, a bebida também deve ser. Então se você pede água, eles já supõem que é quente. A água da torneira aqui é potável, mas é bom saber que foi fervida, pois é mais esterilizada. Enfim, se quiser ter certeza de que é água fria, peça garrafa de água.

A maioria dos chineses toma chá na hora da refeição. Aliás, em muitos restaurantes você chega e eles já trazem o chá. Pode-se beber à vontade, e não cobram por ele. O chá vem em uma chaleirinha de louça. Quando acaba, se quiser mais, é só virar a tampa pra cima que eles repõem.

Termino esta série compartilhando a curiosidade que mais nos chamou atenção. Nos primeiros dias aqui, entramos em um restaurante e já foram nos trazendo chaleira com chá, copos e uma tigela. Não entendemos a tigela, mas colocamos o chá no copo e começamos a tomar. Chega um grupo e senta ao lado. Pegam o chá, viram na tigela e começam a lavar os utensílios no chá. Várias coisas nos vieram à mente: isso não é chá e estamos tomando! Isso é chá mas não de tomar. Será que é para tomar e lavar ao mesmo tempo? Por que cargas d’água eles estão lavando os utensílios? E por quê no chá?

Aí vimos que é comum que eles usem o chá para lavar os utensílios à mesa (veja vídeo abaixo). Parece que não confiam na lavagem dos restaurantes e o chá fervendo elimina bactérias e resto de comido. Esse chá que foi usado para lavar é descartado, mas eles continuam bebendo o chá da chaleira. Agora porquê usam chá e não água, ninguém soube me explicar. O que é poder da tradição…

Continuando o tema de comida em Hong Kong, compartilho mais curiosidades:

  • Algumas vezes a limonada aqui contém sal ao invés de açúcar. Nem sempre, mas não dominar o idioma pode trazer problemas. Eu pedi uma vez e veio com sal. É muito estranho, não consegui beber. Parece que no Brasil é usado como purgante, mas aqui não é o caso, é por gosto mesmo. Até para comprar pronto encontramos limonada com sal, então temos que observar para comprar a que tem açúcar.
Garrafa de limonada com sal

Garrafa de limonada com sal

  • Agora mais estranho que limonada com sal é beber vinagre. Isso mesmo. Vinagre de maçã, doce, é uma bebida aqui. Ainda por cima quente (eles preferem bebidas quentes para acompanhar a comida). Experimentei, não acreditando que era vinagre puro, pensando que o sabor devia ser um pouco diferente, mais “leve” ou doce, sei lá. Não é não, gente. É como beber vinagre quente.

 

  • No post anterior eu disse sobre minha dificuldade em reconhecer a comida pedida em restaurantes e sobre como as fotos ajudam nisso. Uma das razões pode ser a tradução mal feita ao inglês. Ou porque eles nomeiam a comida pelo que parece, não pelo que contém. Dois exemplos:

Na cantina da universidade, o cardápio diz: “Bolo de cenoura” (carrot cake/Luo Bo Gao). Mas não é bolo, não é doce, nem é feito com cenoura. Vejam a foto abaixo. É uma comida feita com nabo e às vezes ainda vem com molho picante.

"Bolo de cenoura" em Hong Kong

“Bolo de cenoura” em Hong Kong

Uma das comidas típicas de Hong Kong é o bolinho de abacaxi (pineapple bun/Bo Lo Bao). Mas… não contém abacaxi. É um bolinho doce, de farinha e ovos, e esse nome é porque a cobertura geralmente tem um formato em xadrez, que os chineses acham que parece um abacaxi. Julguem por vocês mesmos:

Bolinho de abacaxi não leva abacaxi. O nome é devido à semelhança com a fruta... Foto: http://ilovehongkong.org/unique-hong-kong-food

Bolinho de abacaxi não leva abacaxi. O nome é devido à semelhança com a fruta… Foto: http://ilovehongkong.org/unique-hong-kong-food

  • Há muitos estabelecimentos aqui só de sobremesa. São como restaurantes que só servem doces: você senta, escolhe do menu, pede e come sentadinho. Ou seja, após comer em um restaurante, as pessoas vão a um desses lugares e continuam a conversa, desfrutando dos doces. Há uma grande variedade de sobremesas. Além de várias opções de frutas, de acordo com a época, dominam os doces com textura gelatinosa, que pelo visto o povo aqui ama (muitas comidas, salgadas ou doces têm essa textura).
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Sobremesas gelatinosas, de manga

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O cardápio possui muitas opções

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  • Para minha decepção a culinária daqui não usa muito azeitona. Nos supermercados “normais” (os que têm aqui perto de casa), só existe uma marca, espanhola. Vem em uma latinha de 300 gramas que custa uns 10 reais. Só tem opção de preta sem caroço ou verde com pimentão dentro. E nem é muito saborosa. Para encontrar mais variedades (mas até agora não vi nenhuma com caroço), temos que ir aos supermercados mais internacionais e estar dispostos a pagar caro. Eu, que adoro azeitona, estou aprendendo a desapegar….

 

  • Além de arroz, o pessoal aqui é viciado em noodle (macarrão instantâneo, tipo miojo). Vários lugares em Hong Kong cheiram a isso. É tanta variedade, que os supermercados costumam ter um corredor, os dois lados, inteiro de noodle. O mais curioso é que, ao conversar com uma menina chinesa, que havia chegado a Hong Kong há uns 6 meses, perguntamos: quais as diferenças com sua cidade na China? O que você sente falta e não encontra aqui? Quando ela respondeu “noodles”, não conseguimos conter a cara de espanto. Ela explicou que na região dela, o modo de preparar (?!) e o tempero são diferentes daqui…
Prateleira de noodles. Todo supermercado tem duas. E essa é de um supermercado pequeno...

Prateleira de noodles. Todo supermercado tem duas. E essa é de um supermercado pequeno…

Como viram, em termos de comida, não falta criatividade aos chineses…

No próximo post: os hábitos relacionados aos restaurantes. Muito pano pra manga, muitas curiosidades divertidas. Até lá.

Comida em Hong Kong

Uma pergunta que várias pessoas têm me feito é sobre a comida em Hong Kong. Chegou a hora de começar a responder, pois o assunto rende mais de um post.

Já adianto que, mesmo se não fôssemos vegetarianos, seria difícil acostumar. É um dos pontos que os estrangeiros aqui têm mais dificuldade para se adaptar. Paradoxalmente, Hong Kong se vende como um paraíso gastronômico.

Em primeiro lugar, esqueçam essa história de comida chinesa. Além de não lembrar muito a comida dos restaurantes chineses do Brasil, na China, a comida difere por regiões. Não teria muito sentido dizer comida chinesa, assim como no Brasil não falamos “castanha do Brasil” (Brazilian nuts), como é mundialmente conhecida a nossa castanha do Pará. Em Hong Kong é a comida cantonesa e, segundo o pessoal daqui, a comida cantonesa é a melhor do mundo. (!?!?!)

Bom, o arroz aqui reina absoluto em todas as refeições. Café-da-manhã, almoço, janta. O arroz é grudadinho e sem tempero, inclusive sem sal. É quase como um pão, complementa a comida. No supermercado, são vários tipos de arroz e vendem em grande quantidade: os sacos são de 5, 10, 15 ou 25 kilos! Vejo várias pessoas saindo do supermercado com o saco grande nas costas, como se fosse saco de cimento.

O consumo é tão grande que há uma maior incidência de câncer de intestino, relacionado a uma substância contida no arroz. Por isso, os médicos chineses pedem exames, como colonoscopia, com mais frequência, como medida de prevenção ou detecção precoce do câncer.

Além de arroz, a culinária contém muita carne, vermelha, frango e bastante peixe e frutos do mar. Há até carne de cobra e tartaruga. Mas não posso debater a qualidade de nenhuma.

carne cobra e tartaruga

Quem quiser comer carne de cobra ou tartaruga…

Há várias espécies de cogumelo. Tenho a impressão que são preparados para parecer carne: cheiro, textura e gosto. Como muita gente é vegetariana por questão religiosa (budismo), devem ficar felizes por comer “carne falsa”.

No entanto, como meu problema é aversão à carne, não consigo comer comidas que parecem com carne…

Como vegetariana, peno pra comer nos restaurantes, mesmo os vegetarianos. São fartos em carne falsa e verdura para eles é praticamente sinônimo de repolho fervido ou mesmo cogumelos.

Aprendi a não pedir nenhum prato com cogumelo, mas nem por isso acerto. Há pouco tempo, pedi um arroz com verduras em um restaurante vegetariano, pensando que não tinha como errar. Mas veio um arroz cheio de glúten (parecendo carne), cogumelo e só uns pedacinhos de cenoura e cinco ervilhas! Como assim?

ARROZ com vegetais

Arroz com vegetais. Quantas verduras vocês conseguem ver?

Aliás, isso é super comum. Você lê no cardápio uma comida, imagina como ela é, mas quando vem, não é nada do que pensamos. Saí com 3 amigas estrangeiras e pedimos 4 pratos diferentes. Quando chegaram, nenhuma conseguia reconhecer o prato que tinha pedido, pois era  diferente da imagem mental que tínhamos do que viria. Acabamos compartilhando tudo. Por isso, o bom é ir a restaurantes que têm fotos das comidas, no cardápio ou nas paredes, o que é comum.

Realmente, não entendo porque não oferecem mais verduras e legumes nos restaurantes, pois há grande variedade. Por exemplo, há muitos mais tipos de verdura verde escura, tipo couve, do que no Brasil. As frutas também abundam. Enfim, a minha saída é cozinhar em casa.

A boa notícia para os vegetarianos com intolerância à lactose, como nós, é que mais de 80% dos asiáticos são intolerantes à lactose. No Brasil, o que não tem carne geralmente tem queijo. Aqui, praticamente só os restaurantes de cômica ocidental colocam queijo nos pratos. Os chineses comem muita, muita soja, principalmente em forma de tofu.

Essa questão me fez perceber uma jogada de marketing fenomenal. Como a indústria do leite vende um produto que faz mal às pessoas? Pegando no que é valor para as pessoas aqui. Em uma população de baixa estatura e que procura ter pele branca (veja este post), vendem leite como produto que faz crescer e… que embranquece a pele!

Eu vi uns colegas de 18 anos, tomando leite e perguntei: mas não te faz mal?

-Sim, mas é bom pra ficar mais alto.

Outra amiga disse que as grávidas procuram beber leite para que os bebês nasçam com pele alva. Ela compartilhou que sua mãe não bebia leite quando estava grávida dela e por isso a família a culpou por minha amiga não ter nascido branquinha!

Censura?

Minha amiga peruana Kátia está viajando pelo mundo e veio nos visitar em Hong Kong (nossa primeira visita!). Ela pesquisou na nossa guia sobre Hong Kong as coisas que queria visitar aqui. Como boa historiadora que é, entre outros lugares, selecionou um museu chamado 4 de junho. Segundo a descrição da guia, que é de 2015, este museu é o primeiro do mundo dedicado aos protestos pró-democracia que aconteceram em Pequim em 1989. O evento também é conhecido como Protestos da Praça Tiananmen. Foram 7 semanas de ocupação dessa praça em Pequim e centenas ou milhares de civis mortos. Na China, que tem uma internet censurada e controlada, se você busca na internet pelo evento, não aparece nada. Foi literalmente borrado da internet chinesa.

Bom, o museu em Hong Kong traria artefatos, fotos e filmes relatando a ocasião. Eu quis ir com ela. Pra confirmar os horários e endereço da guia, busquei na internet. Não achei página oficial, mas um blog que contava das exposições, horários, preços, etc.

Quando chegamos na rua onde seria, não encontramos o museu. Sabíamos que não era no nível da rua, mas pela foto do googlemaps haveria uma placa com o nome do museu, do lado de fora. Fomos até o final da rua, voltamos, olhamos o nome da rua de novo, nada. O GPS do aplicativo continuava dizendo que o museu estava diante de nós. Eu parei para buscar na internet se havia mudado de endereço ou se estava fechado. A Kátia resolveu se aproximar do edifício onde seria o museu e viu, pela porta de vidro, que havia um diretório com o nome de todos os negócios que havia em cada andar. Lá estava, 5o andar- 4th June Museum. Ela me chamou:

– Clara, é aqui.

Enquanto atravessava, uma segurança ou porteira abriu a porta e Kátia foi dizendo: – Queremos ir ao museu 4 de junho.

Ela respondeu, em um inglês macarrônico:

– Closed (fechado)

– Today (hoje)?
Mas a mulher ficava só balançando a cabeça negativamente e cruzando uma mão sobre a outra, em um gesto que interpretei como “fechado”. Eu resolvei perguntar também, para confirmar e a resposta era a mesma: fechado, fechado.

Diante de nossas caras de perplexas e da nossa resistência em simplesmente aceitar e sair, ela fechou a porta na nossa cara, nos expulsando do prédio (estávamos só com meio corpo pra dentro).

Achamos muito estranho. Será que ela nos censurou e não nos deixou subir? Ou será que o governos chinês fechou o museu (disse no post anterior que a China vem fazendo intervenções aqui). Nesse último caso, porque não tiraram o nome do diretório do edifício? Até agora não entendemos.

Com a expulsão, nem deu para eu pegar a câmera e registrar com foto ou vídeo. Mas a sorte é que a Kátia é uma artista e fez uma história em quadrinhos sobre o acontecimento, que compartilho com vocês.

 censura- Katia

Aliás, ela está viajando pelo mundo por um ano e diariamente coloca um desenho com algum acontecimento do dia. Um diário muito divertido e criativo. Se quiserem acompanhar (é em espanhol, mas os desenhos ajudam a entender), ela posta todo dia na página do Facebook: La isla desconocida

PS: Após escrever este post, meu blog foi bloqueado na China… Uma amiga entrou antes e agora não se pode mais… Achei que por ser em português estava segura…

Uma pergunta simples mas cuja resposta é mais complicada. Afinal, Hong Kong está na China? Eu não consigo responder esta pergunta satisfatoriamente… Em teoria sim, mas na prática não.

Para entender, voltemos um pouco no tempo, de forma muito resumida: a China perdeu Duas Guerras do Ópio contra a Grã-Bretanha (a primeira guerra do ópio começou em 1839). Teve que ceder então a ilha de Hong Kong e a península perto dela. Essas ficavam na região de Cantão e tinham importância por seu porto e posição estratégica. A Grã-Bretanha então assumiu o controle de Hong Kong por 155 anos. Em 1 de julho de 1997, Hong Kong foi “devolvido” (os chineses dizem reunificado) à China com algumas condições: nos seguintes 50 anos, até 2047, não haveria mudanças no sistema capitalista. Hong Kong, assim como Macau, virou uma Região Administrativa Especial, sob o lema: um país, dois sistemas. Hong Kong tem um alto grau de autonomia.

Além do sistema econômico ser diferente da China, a moeda é diferente, chineses precisam de visto pra entrar aqui e residentes de Hong Kong para entrar na China, quando saímos de Hong Kong passemos pela imigração e controle de passaporte mesmo quando entrando na China, quem é cidadão aqui tem passaporte de Hong Kong e não da China, há liberdade de imprensa e internet sem bloqueio, ao contrário da China. Hong Kong possui sistema judiciário próprio, as leis continuam baseadas na Lei Inglesa. Na China o idioma oficial é mandarim (mas vários outros coexistem) e em Hong Kong é cantonês e inglês. Tudo isso faz com que eu sinta que não estou na China.

Mapa de Hong Kong e sua localização na China. Fonte: http://vlib.iue.it/history/asia/China/

Mapa de Hong Kong e sua localização na China. Fonte: http://vlib.iue.it/history/asia/China/

A influência britânica se vê até hoje. Não tanto dos britânicos que permaneceram aqui, mas noto que, de maneira geral, os moradores de Hong Kong de etnia chinesa, consideram os chineses mal educados ou menos “civilizados”. Há leis que multam quem cospe no chão, por exemplo, prática comum na China. Se alguém atravessa a rua com sinal de pedestre vermelho, entra no metrô sem esperar os de dentro sair ou algo do gênero, o pessoal diz: esses chineses… Já presenciei uma briga acalorada por uma questão de fila, que terminou com um grito: -volte para China!

Desde a reunificação, muitos chineses estão vindo para Hong Kong e penso que o governo esteja até incentivando.

Por sua história, Hong Kong se considera multicultural, uma ponte entre ocidente e oriente. Seu mote é Asia’s world city, algo como uma cidade mundial na Ásia. Além disso, atrai muitos estrangeiros pois é um dos melhores lugares do mundo para se fazer negócios e os impostos são baixos.

Ainda que tenha havia assinado o acordo que dá autonomia, a China vem tentando fazer algumas interferências, que não são bem vistas. A revolução dos guarda-chuvas, em 2014, foram protestos contra uma tentativa de interferir nas eleições. Ninguém sabe o que vai acontecer em 2047. Será que os moradores de Hong Kong vão aceitar passivamente o domínio chinês e perder a democracia, a liberdade? Será que conseguirão viver sem Google, por exemplo? O tempo dirá. Por enquanto, eu fico aqui tentando resolver se estou na China ou não…

Compartilho com vocês algumas curiosidades que me fazem sorrir em Hong Kong, pela excentridade e diferença com nossa cultura.

Enquanto no Brasil a onda é alisar as madeixas, aqui os salões oferecem permanente. Já vi até oferta de permanente de cílios (seja lá o que isso for: fazê-los ficar mais encurvados?). No Brasil, onde o anelado impera, muita gente estica o cabelo, como se só cabelo liso fosse bonito. Aqui, onde praticamente todos têm cabelo liso, querem ondular as madeixas e precisam fazer permanente. Principalmente entre as mulheres mais idosas, o estilo que impera é cabelo curto e anelado. Até mesmo homens já vi com cabelo frisado! Duas amigas me perguntaram se meu cabelo é natural. Ao responder que sim, elas arregalaram os olhos de admiração e disseram: eu queria que meu cabelo fosse assim! Isso confirma o que dizem: o ser humano nunca está satisfeito com o que tem.

Achei tão fofinha essa senhorinha tirando selfie. E o cabelo com permanente é muito comum aqui.

Achei tão fofinha essa senhorinha tirando selfie. E o cabelo com permanente é muito comum aqui.

Vi uma brincadeira em uma gincana, que só podia ser aqui: passar as bolinhas de gude de um copo para outro, usando os palitinhos. Talvez no Brasil adquira um novo significado, mas aconselho a colocar menos bolinha porque eu tentei e não consegui nem metade das que estão no vídeo.

Uma mistura para chá. Vai um chazinho com… inseto! Nhame nhame…

Vai um chazinho com inseto?

Vai um chazinho com inseto?

 

E a marca desse suco de tomate não soa bem para ouvidos brasileiros né? Virou até nossa brincadeira interna.

Suco Kagome.

Suco Kagome.

Muitas vezes deparei ao andar na rua, com várias coroas de flores na calçada. Como não leio chinês, não sabia o que estava escrito. Na primeira vez que vi pensei que alguém havia morrido. Mas aí eu vi que haviam várias seguidas e seria muita coincidência ou uma tragédia para que vizinhos tivessem perdido entes no mesmo dia. Pensei então que se tratavam de floriculturas ou até de funerárias. Só um tempo depois vim a saber que, na verdade, toda vez que alguém abre um novo negócio ou filial em novo lugar, recebe essas coroas com desejos de sucesso. Essa é apenas uma das tradições/ superstições de quem abre um novo negócio, para que o mesmo prospere.

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Finalmente se encerram as tradições do ano novo chinês! Ufa!

Continuando alguns rituais do Ano Novo Chinês (leia o primeiro post aqui):

Há uma parada aqui em Hong Kong, no primeiro dia do ano novo e no segundo dia há fogos de artificio. Na parada, eles convidam grupos de todo o mundo para desfilar, então cada ano é diferente. Há carros alegóricos, algumas danças e música. Esse ano teve até Guerra nas Estrelas. Mas para meu olhar de brasileira, acostumada aos desfiles de carnaval, a parada pareceu um pouco fraquinha. Fiz uma compilação de alguns momentos no vídeo abaixo.

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É importante nessa época cuidar dos antepassados que já partiram. Por tanto, as famílias queimam dinheiro falso, maquetes de casa e carro, para que a fumaça suba ao céu, alcançando assim os familiares para que não lhes falta dinheiro, habitação e meio de locomoção onde estiverem agora. (eles também fazem isso no dia do aniversario daqueles que já se foram)

Casas, carros e até helicópteros para queimar, ofertando aos antecepassados que já partiram

Casas, carros e até helicópteros para queimar, ofertando aos antecepassados que já partiram

Há uma dança típica, com leões e dragões, cujo significado é colher os verdes (cai qing). A palavra ‘cai’ em chinês tem som parecido às palavras que significam ‘sorte’ (cái )e ‘vegetais’ (cài). Os comerciantes devem deixar um envelope (adivinhem de que cor?) com dinheiro amarrado a alguma fruta, geralmente laranjas. Os leões de aproximam para `comer´ o vegetal e cuspir o envelope. Acredita-se que isso traz prosperidade aos negócios. Eu fiquei impressionada com a dança do leão principalmente. São duas pessoas e precisam ser um pouco malabaristas. Veja o vídeo abaixo até o final, para ver quem conseguiu pegar uma das frutas cuspidas pelo leão.

Muitas das tradições envolvem comida. Há uma comida específica que o chinês deve comer em cada um dos primeiros 7 dias do ano (macarrão, ovo, peixe, etc).

Essa figura é tipo um deus do dinheiro, todo mundo pendura na casa pra trazer riqueza

Essa figura é tipo um deus do dinheiro, todo mundo pendura na casa pra trazer riqueza

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Nessa época as pessoas se cumprimentam com um gesto específico, como podem ver abaixo, que é um desejo de que o ano traga riqueza.

No 15o dia do ano novo, há o término das celebrações, com o Festival da Lanterna. São lanternas de papel (maioria vermelha, mas nem todas). Dentro delas há charadas que as pessoas devem adivinhar. Antes, quem adivinhasse, levava a lanterna. As lanternas simbolizam deixar seu eu pra trás e adquirir um novo no ano que começa e que por sua vez abandonarão ao final do ano. Pelo que entendi, é como renovação, deixar as coisas para trás, mas saber da efemeridade do eu.

Além das lanternas, é também o dia dos namorados na China. A razão é que, antigamente, as moças “de família” solteiras, não podiam sair sozinhas. Mas nesse dia, elas podiam. Aí aproveitavam para ver os namorados. Além das lanternas, há também mais uma comida específica a se comer nesse dia: Tang yuan.

 IMG_4911 IMG_4904 IMG_4902 IMG_4899 IMG_4898 Lanternas do Ano do Macaco

Durante os primeiros dias do ano novo, o chinês procura ir a uma Árvore dos Desejos. São figueiras, consideradas especiais por ser onde Buda teve sua iluminação. Você escreve seu desejo num papel vermelho, junto com nome e data de nascimento. Amarra em uma corda e no outro extremo amarra uma laranja. Aí você joga na árvore. Se ficar pendurada entre os galhos, seu desejo vai se realizar.

Hoje em dia, para evitar danos às árvores, é proibido jogar os desejos nelas. Deve-se fazer na réplica de plástico, que fica sempre perto de uma árvore do desejo e, aparentemente, detém o mesmo “poder” da original. Veja o vídeo abaixo.

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