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Com o risco de cair no estereótipo, posso dizer que a maioria dos chineses tem um tipo físico parecido: cabelo liso, preto, olhos puxadinhos, estatura mediana…. Talvez seja porque, como brasileira, eu esteja acostumada à mistura de etnias, a ver na mesma paisagem diversos tons de pele, várias cores e tipos de cabelo e olhos. Mesmo levando isso em conta, posso generalizar sem medo: as pessoas aqui são bem mais magras que as ocidentais! Não sei se é o estilo de vida ou é mesmo genética.

Eu sempre sou tamanho pequeno no Brasil. Nos Estados Unidos e Inglaterra sou inclusive petit, isso é: menor que o número 1 dos tamanhos normais. Há alguns anos fui experimentar uma calça nos EUA e todas me pareceram grandes. Peguei a menor que achei, a número 1, experimentei e ficou grande. Surpresa e, até sem graça, perguntei à vendedora se havia tamanho menor que o 1. Ela disse: você deve procurar a seção de petits, no andar de cima. Eu nem sabia o que era isso, e ela disse: é para mulheres pequenas e magras. Diante do meu espanto, ela explicou: por causa das asiáticas.

Só agora entendo exatamente o significado dessas palavras. As roupas em Hong Kong são bem menores do que as que estamos acostumadas. Eu fui experimentar um top de ginástica aqui e perguntei à vendedora qual seria o meu tamanho. Ela disse que achava que era extra grande. Eu ri e pensei: essa mulher está exagerando. Peguei um tamanho grande, experimentei e… ficou pequeno! Realmente eu sou extra-grande aqui! Por isso, ao viajar de volta ao Brasil, cujos voos geralmente duram 24 horas, poderei novamente voltar a ser tamanho pequeno! Ufa!

Brincadeiras à parte, às vezes fica difícil comprar roupa aqui. Ser muito magra aqui significa também ser sem muita curva, peito ou bunda. Por isso, além de nem todas as roupas ficarem bem no nosso tipo físico, pois são feitas para corpo com poucas curvas, é difícil achar sutiã sem enchimento. Há diversas grossuras de enchimento e alguns parecem que têm até um travesseiro dentro.

Calçado também é complicado. Com os pezinhos de anjo das mulheres daqui, tudo que gosto não tem meu número, porque aqui só vai até um número que fica pequeno no meu pé…

No entanto, várias lojas levam em conta que estrangeiros também precisam se vestir e aí surgem os tamanhos super extra mega grandes. Em inglês a sigla é XL (extra large). É comum ver até 5X: XXXXXL (vejam foto abaixo). O engraçado é que ao ver este tamanho, imagino algo enorme, mas quando pego para ver, não é um tamanho tão exagerado assim…

Tamanhos roupa

Loja com roupas do tamanho extra pequeno (small) para o extra extra extra extra extra grande (large)

Depois de compartilhar o principal desafio de viver em Hong Kong, a moradia, vou falar sobre uma grande facilidade: a mobilidade.

Em vários lugares, principalmente no centro, há plataformas elevadas interligando edifícios. É possível andar vários quarteirões “no ar”, atravessar avenidas e ruas sem descer ao nível do chão. Penso que isso foi feito pensando mais nos carros, para evitar semáforos e fazer o trânsito fluir, mas é bom para os pedestres também. Essas plataformas são cobertas e ajudam a proteger do sol e chuva, além de ser mais rápido do que ficar esperando sinal de pedestre abrir.

plataformas aereas hong kong.jpg

Acho divertido é que aqui a escada rolante é transporte público. Como o relevo é montanhoso, várias subidas possuem escadas rolante públicas. Você está andando e, de repente, no meio do passeio aparece uma escada rolante que ajuda na subida. Inclusive, Hong Kong se gaba de possuir a mais longa escada rolante ao ar livre do mundo. Na verdade, não é uma escada continua. São vários trechos de escada, cobrindo uma distância de 800 metros, que sobem uma altura de 135 metros.

escada rolante Hong Kong-abordodomundo

Agora, o metrô daqui é um capítulo à parte: maravilhoso. Conhecido como MTR, pela sigla em inglês de Mass Transit Railway (transporte de massa sobre trilhos). O MTR possui ar condicionado forte, o que é um alívio no calorão daqui.

A frequência dos trens é impressionante. Varia, claro, de acordo com horário e linha, mas na que costumo pegar, eles passam de um em um minuto. Apesar da frequência, quase sempre vem cheio de gente.

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Dentro do MTR em Hong Kong

Quase todas as estações são dentro de shoppings. Esses shoppings variam de tamanho de acordo com a localidade da estação, mas costumam ter supermercado, padaria, etc. É prático, pois você chega na sua estação e pode comprar o que precisar antes de acabar de chegar em casa.

Algo que agiliza a mobilidade e que eu nunca vi em outro lugar (e olha que já rodei) é que nas estações em que passam mais de uma linha, quem quer trocar de linha não precisa trocar de plataforma (cross platform interchange). Difícil de explicar, mas vou tentar. Geralmente, o que acontece nos metrôs é que em uma plataforma, passa uma linha, digamos, vermelha, de um lado indo na direção A para B e, do outro, de B para A. Quem precisa trocar de linha, chega na plataforma e tem que procurar a outra plataforma, na qual passa a linha amarela. Gastam-se alguns minutos nessa troca, pois geralmente há que mudar de linha. No entanto, na maioria das estações de baldeação em Hong Kong, a mesma plataforma tem, de um lado, a linha vermelha indo de A para B e, do outro, a linha amarela indo de C para D. Na outra plataforma da estação, a linha vermelha indo de B para A e a amarela de D para C. Quem precisa trocar de linha, basta então dar alguns passos e cruzar a plataforma. É super prático e economiza tempo! Há até um sistema dentro dos trens que indica em qual estação é melhor descer, de acordo com a direção que se vai pegar da outra linha.

O preço da viagem no MTR depende da distância em que se anda. Sempre acho isso mais justo: pagar pelo tanto que se anda. Ao entrar, você passa o cartão e ao sair, passa o mesmo cartão e o sistema calcula a distância e cobra de acordo. Esse cartão é o Octopus. É um cartão pessoal, no qual você coloca o quanto de crédito quiser (há vários lugares para recarregar, em um processo rápido e simples) e ele vai debitando os valores usados. O melhor: o Octopus não é só para o transporte urbano. Pode-se usar em milhares de estabelecimentos comerciais espalhados pela cidade. De supermercados a restaurantes, de máquinas de conveniência a carrinhos de sorvete, o Octopus é amplamente utilizado. É prático pois não precisa de troco e evita ter que ficar guardando moeda. É só tocar em uma maquininha, nem é preciso tirá-lo da bolsa. Agiliza qualquer fila. Além disso, é possível usá-lo para controle de acesso a edifícios, para pagar contas online. Pode-se ainda personalizar o cartão, como foto e fica garantido em caso de perda. Para uso temporário, para quem vem como turista, por exemplo, também vale a pena. Paga-se um depósito, que é devolvido quando o cartão é retornado.

Com tudo isso, carro é totalmente dispensável e quase não pego ônibus. Eu adoro essa agilidade e sustentabilidade! Com tanta frequência e eficiência, difícil é culpar o trânsito por algum atraso…

Uma das grandes questões a ser considerada para quem quer morar em Hong Kong é a moradia. Quem já viu fotos de Hong Kong pode ter a imagem de uma cidade dominada por prédios altos. De fato, Hong Kong não possui os maiores arranha-céus, mas é a cidade com mais arranha-céus do mundo (cerca de 1230). O maior edifício possui 118 andares, sendo o sexto do mundo em altura.

E não são altos só prédios comerciais. Os prédios residenciais mais antigos costumam ter pelo menos 8 andares, chegando a 20. Já os mais modernos têm mais de 50 andares. Temos amigos que moram no andar 67, em um prédio com 70 andares. O elevador (foto abaixo) é tão rápido que dá pressão no ouvido.

andar 67

No elevador de um prédio de 70 andares. Ou quase. Na verdade, reparem que não tem todos os andares, mas essa estória fica pra outro post.

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A vista do 67o andar

Essa altura toda não é mania de grandeza. É pura necessidade. Hong Kong não tem espaço. Com pouco mais de 1000 km2 e cerca de 7 milhões de habitantes, a densidade populacional é 6500 pessoas por km2. Como comparação, São Paulo tem 7.700, um pouco mais densa. Só que 60% do território de Hong Kong são natureza (montanhas e parques), onde não é possível construir. Na imagem abaixo, as partes em amarelo são o espaço que sobra para morar.

Essa falta de espaço, claro, faz com os preços de aluguel e compra sejam absurdamente altos até para espaços ridiculamente pequenos. Isso puxa o custo de vida de Hong Kong para o mais alto do mundo, pois na minha opinião comida e outros itens não são tão caros.

Claro que o preço varia com a região e o tamanho, então vou falar em termos gerais. O preço médio de aluguel de um apartamento de 3 quartos é de 18 mil reais por mês (HKD 44000,00). Na prática, mesmo um apartamento menor, de 1 ou 2 quartos, em um lugar mais central, não fica por menos da metade disso.

Na ilha de Hong Kong, que é o coração da cidade, o aluguel costuma ser caro, mesmo em partes em que o metrô não chega (geralmente perto de praias). Nas outras ilhas mais afastadas, o aluguel é mais barato, mas a pessoa fica dependendo de ferry para se deslocar. Além de gastar muito tempo e pagar mais no deslocamento, os horários dos ferries são espaçados e limitados.

Uma maneira de economizar no preço do aluguel é morar em um lugar bem pequeno. Muitos apartamentos têm só um cômodo que é sala e quarto, mais o banheiro. Então muita gente mora sem ter cozinha em casa. Acabam comendo fora sempre e por isso Hong Kong é apinhado de restaurantes e comida de rua, as 24 horas do dia.

Mesmo apartamentos com mais cômodos, muitas vezes possuem quartos em que não cabe nem o armário, praticamente só a cama. E já vi banheiro daqueles que, literalmente, tem que tomar banho em cima do vaso. Chega a ser claustrofóbico.

Como a necessidade faz a força, aflora a criatividade do pessoal aqui em aproveitar cada centímetro quadrado de espaço. Há muitos móveis com duplas funções tipo sofá-cama e mesa com gavetas.

Vista de Hong Kong, com seus arranha-céus, desde o Victoria Peak

Vista de Hong Kong, com seus arranha-céus, montanhas e o mar, desde o Victoria Peak

Além do aluguel em si, claro que há as outras despesas. No processo de aluguel de um imóvel, geralmente há que deixar 2 meses de aluguel como caução, como acontece no Brasil. Mas aqui, no ato de assinatura do contrato, o inquilino paga para a imobiliária metade do aluguel e o proprietário a outra metade. Ou seja, a imobiliária, recebe um mês de aluguel e inquilinos e proprietários não têm este valor reembolsado.

As contas de água, luz e gás não chegam mensalmente. Geralmente a cada dois meses mas nem sempre. Não há regularidade. A boa notícia é que a água é subvencionada e praticamente grátis. Em 10 meses, chegaram só 3 contas que totalizam HKD187, cerca de R$79! Mais ou menos 8 reais por mês…

Para compensar, a eletricidade acaba ficando mais cara no verão por conta do ar-condicionado, que é indispensável nessa época, quando o termômetro fica acima dos 32O e a sensação térmica, por conta da umidade, é de cerca de 44o.

Por tudo isso, a questão da moradia se converte em um dos problemas sociais daqui. O governo oferece residências estatais para quem ganha pouco. São 2 milhões de pessoas (30% da população morando nesses apartamentos).

Só que há problemas, pois às vezes muita gente divide apartamento minúsculo, mesmo não sendo família, tendo que compartilhar áreas comuns. Muita gente morando junta em lugar pequeno, restringe a privacidade. É uma intimidade forçada. Se por um lado há fila de espera para estas residências, há outras pessoas que preferem privacidade maior e optam por morar na rua. Isso gera um fenômeno diferente do Brasil: parte da população de rua são trabalhadores com emprego formal, mas que não ganham o suficiente para pagar a moradia. Alguns optam por dormir em barracas ou colchões em passagens subterrâneas, mas, com o calor, muita gente acaba passando a noite sob o ar condicionado dos McDonalds 24 horas, que tem muito por aqui. É super comum, à noite, ver gente dormindo escorada nas mesas desse fast-food. Um grupo de mestrado da minha escola fez um documentário sobre moradores de rua. Gentilmente, me cederam para compartilhar com vocês. É um vídeo de 13 minutos, que está em mandarim, com legenda em inglês (não português, desculpem…)

Afinal de contas, o que eu estou fazendo em Hong Kong?

Eu vim fazer doutorado. Tudo começou quando minha amiga Christine, que está fazendo doutorado em Singapura, viu uma palestra de um professor de Hong Kong, que falou sobre minha escola e ela achou a minha cara. A School of Creative Media (escola de mídia criativa), na City University of Hong Kong, diz ser a única no mundo que combina mídia e arte. Entrei no site, vi os recursos e apaixonei-me. Pesquisando sobre doutorado, vi que havia a possibilidade da bolsa do governo, que se chama Hong Kong PhD Fellowship Scheme. É voltada para atrair estudantes internacionais, interessados em cursar o doutorado em 8 universidades daqui. Dizem que essa é a bolsa que melhor paga no mundo. Pode ser, mas com o custo de vida aqui sendo literalmente o mais caro do mundo (veja notícia em inglês aqui  ou notinha em português aqui), a bolsa mal é suficiente pra cobrir os gastos.

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Então me preparei por um ano, fiz um projeto para estudar o fenômeno de selfies e participei da seleção. Com direito a entrevista telefônica de madrugada, a universidade me garantiu a vaga. Quando saiu o resultado da bolsa do governo, e eu fui selecionada, a universidade me ofereceu uma bolsa própria, com moradia grátis por um ano e isenção das mensalidades.

A bolsa do governo, além do pagamento mensal, inclui uma verba para participar de conferências internacionais e ainda aumenta um pouco o valor se eu passar um semestre no exterior. Não à toa, é bastante concorrida. Quando tentei, em 2014, foram mais de 3,600 candidatos do mundo todo, para cerca de 200 vagas. Enfim, com essas duas bolsas, não tinha como eu não vir. Para saber mais sobre a bolsa do governo, clique aqui)

Cerimônia de recebimento da bolsa Hong Kong Fellowship Scheme

Cerimônia de recebimento da bolsa Hong Kong Fellowship Scheme

O sistema educativo de Hong Kong é baseado no modelo britânico. O nível superior aqui é todo em inglês (aulas, trabalhos, comunicação interna) então não precisarei escrever uma tese em cantonês ou mandarim. Ufa!

A City University of Hong Kong, ou simplesmente, CityU, é uma universidade jovem e ano passado foi eleita a 57a melhor universidade do mundo, de acordo com o QS World University Rankings. Além disso, é a 7a melhor universidade da Ásia (QS University Rankings: Asia) e a 4a do mundo entre as 50 que têm menos de 50 anos (world’s top 50 universities under 50).

Após quase um ano aqui, posso destacar algumas coisas que mais me chamam a atenção, talvez pela diferença com o Brasil.

A CityU oferece uma quantidade enorme de cursos e atividades extraclasses, gratuitos ou praticamente gratuitos. Eles têm uma preocupação muito grande com o bem estar dos alunos. Acho que é porque os chineses são meio bitolados com estudo e competitivos. Se deixar, eles ficam só estudando e não fazem outra coisa. Qualquer dia da semana, até no final de semana, e qualquer horário, inclusive madrugada, tem muita estudando na biblioteca ou outros cantos. Então os cursos vão desde crescimento pessoal (como liderança), até hobbies (ex: massagem, pintura), passando por orientação para o mercado (ex: como fazer currículo, passar por entrevista). Além disso, há diversos cursos de educação física e os alunos de graduação ainda ganham 1 crédito por semestre para participar. Além dos esportes tradicionais como natação, volêi e tênis de mesa, tem também: dança, yoga, pilates (já fiz nos dois semestres que estou aqui), arco e flecha, golf, esgrima e escalada.

Como se fosse pouco, eles organizam passeios turísticos e culturais para quem quiser (inscrição por ordem de chegada) e cobrem as entradas e 60% do transporte e alimentação!

Eles investem pesado na cultura de internacionalização e possuem centenas de programas de intercâmbio com diversos países (Brasil ainda não). Os programas são de semestre no exterior, voluntário internacional e estágio no exterior. Há também bastante estudantes internacionais aqui. Por isso, há um projeto com alunos de graduação, para aulas básicas de cantonês para estrangeiros. Lógico que eu participei. Além de ajudar com vocabulário básico, ainda ganhei umas amigas fofinhas que me ajudam por telefone caso necessite algo urgente e não consiga me comunicar. A universidade separa verba para estes alunos e pro curso. Na última aula, deu dinheiro para que nós, os aprendizes, fôssemos à praça de alimentação e comprássemos em cantonês a comida.

aula de cantonês

aula de cantonês

Confraternização da aula de cantonês

Confraternização da aula de cantonês

A CityU tem uma residência universitária bastante grande, com capacidade para 3.700 alunos. Um prédio é só pra alunos de graduação. Foi onde eu tive o quarto este ano. Os quartos são pequenos, assim como as moradias em geral por aqui. Confesso que não é muito confortável, mas o aluguel é barato. Hong Kong tem um sério problema com preço de moradia e ninguém pagaria o mesmo preço da residência em outro lugar, nem dividindo apartamento. Essa é a grande vantagem, além de fazer amizades, ficar perto da universidade e participar dos eventos semanais. Com isso, sempre tem mais alunos querendo morar lá do que vagas, então eles fazem sorteio.

A biblioteca merece um detalhamento. Adoro! Eu fico impressionada e procuro aproveitar ao máximo os muitos recursos. O acervo é bem completo, até agora tinha todos os livros que precisei. Mas, caso necessite de algum livro que só tenha em outra biblioteca daqui, posso pegar emprestado por meio das parcerias da biblioteca.

O espaço da biblioteca em si é grande, bonito e há vários cantinhos para diversos fins. Tem até duas impressoras 3D para nosso uso. Os recursos são modernos e ela promove atividades como cursos, oficinas e palestras. Já fui a treinamentos diversos e palestras sobre publicação acadêmica. Além disso, vive promovendo concursos que desenvolvem habilidades nos alunos, com prêmio e tudo. Eu tirei primeiro lugar em um concurso de histórias de viagem e terei a minha publicada em um livro!

Agora, o que mais uso é a coleção de mídia. Super completa. Possui vários filmes clássicos que não consegui achar no Brasil, além de documentários e animações mais raros. O melhor: se não tem algum vídeo ou filme que preciso, posso solicitar e eles adquirem. Tem até várias séries de tv completas! Pela biblioteca ainda, temos acesso gratuito a recursos que seriam pagos, como alguns jornais acadêmicos e um software que administra as referências facilmente (eu acho essa parte das referências chata e trabalhosa e o software veio como um bálsamo para mim, que agiliza e automatiza o processo).

Por fim, nós, pós-graduandos, temos acesso a diferentes laboratórios com computadores e softwares modernos. Para minha mesa de trabalho, pude escolher entre um mac e pc, tenho acesso a internet muito boa e espaço para guardar várias coisas (espaço é um problema sério aqui). E meu escritório, que compartilho com outros alunos e professores, tem uma linda vista!

Se faltou algum detalhe que você gostaria de saber sobre a vida aqui, não deixe de me escrever!

minha mesa de trabalho

Com vocês, mais algumas coisinhas particulares de Hong Kong, daquelas que nos deixam um ponto de exclamação.

Já vi várias pessoas saindo com pijama. Geralmente é pijama de flanela e estampa de bichinhos.

Família unida pelo pijama

Família unida pelo pijama

pijama na rua em Hong Kong- abordodomundo

Hong Kong é região suscetível a tempestades e tufões. Há um observatório do clima, que solta uns alertas de vento forte, furacão e tempestade. Tem um sistema de números e cores de acordo com a severidade. Eu baixei o aplicativo e tive que desativar as notificações porque todo dia tinha um alerta, de vento ou chuva. As programações oficiais costumam ter dias e horários alternativos caso haja alerta vermelho de tufão ou furacão. É engraçado pois você recebe um email com um dia e horário e um plano B caso seja preciso cancelar por causa do clima. Abaixo o anexo que veio no email sobre a matrícula (em inglês), só com os dias e horários alternativos.

Anexo com dias e horários alternativos de matrícula caso no dia programado haja algum alerta vermelho.

Anexo com dias e horários alternativos de matrícula caso no dia programado haja algum alerta vermelho.

Aqui é cheio daquelas máquinas em que se coloca moeda e cai uma bala ou brinquedinho. Mas alguns dos brinquedinhos são demasiado exóticos para meu gosto.

Este é de gatos fantasmas.

Este é de gatos fantasmas.

Diversos donos de comércio (restaurantes, lojas, imobiliárias, qualquer negócio) possuem altares no chão, ao lado da porta, com imagem de alguma entidade. Em busca de agradá-la para que o negócio prospere, eles colocam oferendas de comida e incenso. Sempre me pergunto quem afinal come as oferendas.

altar entidade comercio Hong Kong abordodomundo

Muitas pessoas levam o cachorro para passear… em carrinhos de bebê!

cachorros carrinho bebe Hong Kong abordodomundo

cachorros carrinho bebe Hong Kong abordodomundo

Essa é super fashion, carrinho rosa e tudo combinando

Essa é super fashion, carrinho rosa e tudo combinando

 

Algumas pessoas me chamam de Ana Clara, outras só de Ana ou Clara ou ainda Clarinha. Já estou acostumada a pensar qual dessas variações falar de acordo com quem converso, mas nunca imaginei que, ao mudar de país, mudaria também meu nome: Olívia. Já são 3 professores que me chamam assim. Para entender a razão, vou explicar como funcionam os nomes por aqui.

Damos por sentado que os nomes são mais ou menos do jeito que estamos acostumados. Mas aqui em Hong Kong e outros países asiáticos, o sobrenome vem primeiro. Muitas vezes se escreve em maiúsculas. Acontece que, pela questão da língua só conter monossílabos, os nomes e sobrenomes também em geral só contêm uma sílaba cada. E no geral é só um sobrenome e um nome, ainda que alguns contenham um nome do meio.

Por exemplo:

ZENG Jin

ZHANG Wei

Diz a lenda que só existem uns 100 sobrenomes chineses. Mesmo que seja o dobro ou triplo, não significa muito numa população contada em bilhões. Com apenas um nome e um sobrenome, imagino o quanto deve dar de homônimos!

O sobrenome mais comum na China, tipo o nosso Silva, é Ng. Se pronuncia como mm. Isso mesmo, nem se abre a boca.

Quando alguém se apresenta e diz o nome, é algo rápido e só entendo as vogais, não consigo imaginar como é o nome escrito, o que faz ficar mais difícil de decorar o nome… Mas não é só no meu caso. Os nomes são tão complicados para os estrangeiros entender, que muitos chineses adotam um nome “ocidental”. Atualmente os pais podem colocar o nome no filho ou filha em inglês, ou até como um nome do meio. Mas, no geral, cada um escolhe na adolescência, o seu próprio nome ocidental. Se for pensar bem, é até legal isso, poder escolher o próprio nome. Mas se nos nomes em chinês eles costumam pensar em qualidades que querem que os filhos tenham, em inglês às vezes eles vão mais pelo som do que pelo significado. Isso gera alguns nomes e combinações de nome e sobrenome divertidíssimas para quem fala inglês.

Talvez o exemplo mais popular é o Never Wong (never wrong em inglês é: nunca errado).

Na padaria que frequentamos, há duas atendentes que fazem o Chris corar: Licky e Kinky (lick= lamber e kinky é algo como: excêntrico sexualmente).

Conhecemos também uma Underdog (oprimido/a).

Outros exemplos que não vi pessoalmente, mas que li que existem são: Coffee (café), Candy (bala), Pacman, Iceman (homem de gelo), Heman (como He-man, o héroi dos desenhos , mas nesse caso é uma mulher) e até Juicy Tang (algo como: Suco Tang)!

quer estudar inglês com o Never Wong (nunca errado(? curso de inglês aqui pertinho de casa.

Quer estudar inglês com o Never Wong (nunca errado)? curso de inglês aqui pertinho de casa.

Enfim, voltando ao meu caso. Eu e meus cinco nomes provocamos espanto e risos. Em formulários, o espaço pra preencher o nome é pensado para nomes curtos. Meu nome sempre fica maior e eu tenho que fazer duas linhas ou invadir outro campo… (foto).

Meus 5 nomes nunca cabem nos espaços feitos para dois nomes curtos...

Meus 5 nomes nunca cabem nos espaços feitos para dois nomes curtos…

Uma vez, tive que imprimir um formulário eletrônico na escola, e meu nome invadia o próximo campo, tapando o número da minha requisição. E não tinha como mudar dentro do sistema, encurtar o nome ou aumentar o espaço. Tiveram que aceitar eu colocando o número à mão, por cima.

No Brasil, sempre fui uma das primeiras na chamada da escola e já me acostumei a encontrar meu nome entre os primeiros de uma lista. Como aqui o sobrenome é primeiro, fico lá embaixo, no “O” de Oliveira, que é meu primeiro sobrenome, o da família da minha mãe. Mas ainda fica fácil de achar: meu nome sempre é o maior ou, quando em uma tabela, o único em linha dupla. Quando alguém quer  encontrar meu nome em uma lista, ao invés de tentar fazer entender meu nome, eu já digo: é o maior nome. Até agora, nunca falhou.

Com esta história, alguns professores, ao ler meu nome em uma lista, leem o primeiro nome que aparece: Oliveira. Não sei se eles pensam que deve ser meu primeiro nome, pois sou ocidental, ou porque o sobrenome não lhes é familiar, mas já são três professores que ao ler “Oliveira”, me chamam de Olívia. Nas primeira vezes até tentei dizer: “pode me chamar de Ana”, ou ainda ensinar a pronúncia correta. Mas não há como eles pronunciarem o Oliveira… E, como também devo estar pronunciando o nome de algumas pessoas aqui totalmente errado, quem sou eu para insistir? O fato é que já até acostumei a responder e olhar quando alguém me chama por um nome que nunca tinha feito parte da minha identidade: Olívia.

Continuando os posts sobre comida em Hong Kong, algumas curiosidades relacionadas a restaurantes. Mas, antes, uma ressalva: em Hong Kong há diversos restaurantes internacionais, cadeias estrangeiras que são iguais no mundo todo. As pessoas se referem a eles como restaurantes ocidentais. As curiosidades aqui mencionadas se referem aos restaurantes tradicionais, ou típicos, de comida local e frequentados principalmente pelo pessoal local.

Vocês sabem que aqui se come com palitinhos, ao invés de garfo e faca. Todos usam os palitinhos com a mão direita, mesmo canhotos. Talvez seja porque, pela falta de espaço típica daqui, alguns restaurantes possuem poucas mesas. Aí as pessoas compartilham mesa com desconhecidos e sentam bem pertinho. Se todos usarem a mesma mão para comer, evitam ficar esbarrando a mão uns nos outros. Aliás essa questão de restaurante apertadinho gerou uma história engraçada. No nosso segundo dia aqui, fomos a um desses locais. Na nossa mesa havia mais 6 pessoas. Quando a comida chegou, sem cerimônia ficaram observando o Chris, para ver se ele conseguia comer de palitinhos. Todos ficaram de olho nas mãos dele. Quando ele conseguiu levar a comida à boca sem cair, ouviu-se um rumor de admiração: ohhhh. Nesse episódio, tanta coisa resumida daqui: falta de intimidade, o modo como encaram sem cerimônia e como eles conseguem fazer uma onomatopeias em uníssono, parecendo que ensaiaram a surpresa: ohhh, ahhhh.

Voltando aos palitinhos, a comida então é preparada em pedaços do tamanho da mordida. Não é necessário faca, pois não há que partir nada. Há uma colherzinha de louça que serve de apoio. Alguns restaurantes, pensando nos estrangeiros, até oferecem garfo, mas não faca. Come-se em tigelinhas, o que facilita “empurrar a comida”, papel que a faca também faz.

Antes de vir, li sobre duas tradições. Uma vi que é verdade: ninguém coloca os palitinhos na vertical na tigela de arroz. Isso lembra as tigelas de incenso usada nos rituais para os mortos. Então fica associado à morte, o que deve-se evitar a todo custo.

Não coloque o palitinho na vertical em uma tigela de arroz. Fonte: Pinterest

Não coloque o palitinho na vertical em uma tigela de arroz. Fonte: Pinterest

No entanto, a tradição que diz que deve-se deixar um pouco de comida no prato, para mostrar que está satisfeito, não se mostrou realidade aqui. Até conversei com alguns locais sobre isso, eles dizem que já escutaram essa história, mas que não seguem…

Os restaurantes aqui não costumam ter guardanapo. É comum ver as pessoas carregarem lencinhos de papel e usarem como guardanapo…

Quando trazem a comida, você come na tigela em que veio a comida. Se há mais pessoas, a cultura é pedirem mais de um prato e compartilharem todos. Nesse caso, usam uma cumbuquinha e um pratinho pequeno, tipo pires, para auxiliar. Ou seja, todo mundo enfia os palitinhos na comida de todo mundo, pega seu pedaço e leva ao pires de apoio.

Muitas vezes, fazemos o pedido e eles trazem a conta antes de pedir, junto ou até antes da comida. Não é que querem nos expulsar. É só para adiantar. Se quiser pedir mais coisas depois, sem problemas. Eles trazem outra conta. Aí na hora de pagar, devemos perguntar se paga à mesa ou no caixa. Há os dois tipos, mas tenho visto mais o de pagar no caixa. Se for no caixa, levamos essa conta e acertamos lá.

Cuidado ao pedir água em um restaurante local: eles provavelmente vão trazer um copo de água fervida. É que a medicina chinesa não recomenda misturar coisas fria e quentes. Então, como a comida é quente, a bebida também deve ser. Então se você pede água, eles já supõem que é quente. A água da torneira aqui é potável, mas é bom saber que foi fervida, pois é mais esterilizada. Enfim, se quiser ter certeza de que é água fria, peça garrafa de água.

A maioria dos chineses toma chá na hora da refeição. Aliás, em muitos restaurantes você chega e eles já trazem o chá. Pode-se beber à vontade, e não cobram por ele. O chá vem em uma chaleirinha de louça. Quando acaba, se quiser mais, é só virar a tampa pra cima que eles repõem.

Termino esta série compartilhando a curiosidade que mais nos chamou atenção. Nos primeiros dias aqui, entramos em um restaurante e já foram nos trazendo chaleira com chá, copos e uma tigela. Não entendemos a tigela, mas colocamos o chá no copo e começamos a tomar. Chega um grupo e senta ao lado. Pegam o chá, viram na tigela e começam a lavar os utensílios no chá. Várias coisas nos vieram à mente: isso não é chá e estamos tomando! Isso é chá mas não de tomar. Será que é para tomar e lavar ao mesmo tempo? Por que cargas d’água eles estão lavando os utensílios? E por quê no chá?

Aí vimos que é comum que eles usem o chá para lavar os utensílios à mesa (veja vídeo abaixo). Parece que não confiam na lavagem dos restaurantes e o chá fervendo elimina bactérias e resto de comido. Esse chá que foi usado para lavar é descartado, mas eles continuam bebendo o chá da chaleira. Agora porquê usam chá e não água, ninguém soube me explicar. O que é poder da tradição…

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